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Matéria publicada no Zashi edição 2 - Outubro de 2007

Capa de Zen in Brazil: o caminho de modificações do budismo em sua adaptação no País

Cristina Rocha

(Por Erika Horigoshi | Foto: Jin Yonezawa)

Estudiosa do budismo e do zen, Cristina é uma das pesquisadoras mais respeitadas do País nesse segmento. Membro do Centro de Pesquisa Cultural da Universidade de Western de Sydney, Austrália, Cristina está constantemente ministrando cursos sobre budismo no Brasil e no exterior. Autora do livro Zen in Brazil, a pesquisadora mostra, em sua obra, as modificações pelas quais o budismo passou para se adaptar no País. Em meio a sua atribulada agenda, Cristina encontrou um tempinho para o bate-papo com a equipe Zashi reproduzido a seguir.

Zashi - Como começou o seu contato com a cultura japonesa?
Cristina -
Na verdade, comecei com ikebana, no início dos anos 80, no templo da Soto Shu que fica no bairro da Liberdade, na capital paulista. Na época, não era reformado e grande como hoje. Só tinha eu de brasileira no meio das batyans, era muito engraçado. Eu comecei a ajudar lá e passei a fazer shodô. Então, vi que não sabia japonês, daí comecei a fazer nihongô. Comecei a estudar a cerimônia do chá lá na USP; me formei em 1986 e percebi que essa arte incorporava todas as outras artes japonesas. Comecei o mestrado e escolhi como tema a cerimônia do chá no Japão e no Brasil. Então, pensei no que fazer para o doutorado e resolvi estudar o zen.

Zashi - Seria possível definir – em linhas gerais – o budismo difundido no Ocidente? Há diferenças entre ele e o budismo característico do Oriente?
Cristina -
Sim, há diferenças. Uma delas é que, no Ocidente, as pessoas “misturam” os papéis do monge e do leigo. No Oriente, quem medita é o monge. O leigo apóia o templo, ajuda, faz doações, cozinha, presta apoio para que os monges meditem e ajudem o templo. No Japão, alguns templos tem sessão de meditação para leigos. Lá, os monges também têm outro comportamento: podem consumir carne, casar e ingerir álcool.
Já no Ocidente, há forte influência do feminismo, muitas mulheres viram monjas, ou viram professoras de dharma. No Oriente, no tempo do Buda, as monjas sempre foram subordinadas aos monges. É importante perceber que existem vários budismos. Não é como o catolicismo, unificado pela figura do papa. Cada país desenvolve o budismo de maneira diferente.

Zashi - Um artigo seu faz um paralelo entre a cerimônia do chá e o budismo. De que maneira você acredita que esses dois importantes momentos culturais/religiosos do Oriente se assemelham?
Cristina -
A cerimônia do chá japonesa e está ligada ao zen japonês. Nesse artigo (“A cerimônia do chá e o zen-buddhismo”), eu falo da relação histórica estabelecida, pela qual os comerciantes – até então casta baixa na sociedade japonesa –, passaram a imprimir toques refinados como um meio para adquirir prestígio diante da elite. Esses comerciantes precisavam se estabalecer socialmente. Para isso, foram estudar nos templos zen, onde aprendiam escrita chinesa, caligrafia, apreciação da pintura e o próprio zen. Criaram um contexto para a apreciação do chá que recebeu o status cerimonioso, criando vínculos com a filosofia zen, daí o paralelo entre o chanoyu (cerimônia do chá) e o zen-budismo.

Zashi - De forma geral e utilizando-se de celebridades adeptas dessa religião, a mídia acaba contribuindo para o processo difusor do budismo no Ocidente. Você considera essa contribuição mais positiva, ou mais negativa?
Cristina -
É sempre positiva, na medida em que as pessoas ficam curiosas e querem saber mais a respeito do budismo por meios próprios. Entretanto, é uma ação negativa, quando o budismo é tratado como uma simples questão de moda, como uma “tendência” de decoração de ambientes, enfim, tirando toda a sua seriedade.

Zashi - Você acredita que, atualmente, o budismo no Ocidente trilhe um caminho próprio, diferente do que acontece no Oriente?
Cristina -
Sim, é um caminho natural. Porém, em razão da globalização, essa “troca” de conceitos, dos trabalhos que são desenvolvidos no Ocidente e no Oriente, acontece de maneira muito mais rápida. E, de uma forma ou de outra, um acaba influenciando o outro.

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