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ESPECIAL - ZASHI
Matéria publicada no Zashi edição 11 - Julho de 2008

Quimono: a mensagem
codificada pelo corpo
Majestoso traje considerado tesouro cultural japonês oculta,
ao longo de sua história, influências sociais, políticas e comerciais

(Por Equipe Zashi | Colaboração: Andreano Takahashi e Suzana Sakai)

Richard Dawkins é um dos grandes intelectuais da atualidade. É dele a teoria evolucionista do “Gene egoísta”, a qual prega que, na disputa entre os gêneros, a batalha entre os sexos sempre fará com que um tente submeter o outro, explorá-lo. Nesse contexto, o gene egoísta masculino representou, no decurso da história da sociedade japonesa, a submissão da mulher e o controle de seu comportamento, a começar pelos trajes ao longo das eras. Isso foi o que Cecília Noriko Saito, pesquisadora do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP eda Escola Modelo de Língua Japonesa de Goiás, descobriu ao fazer sua pesquisa para a produção do artigo científico “O kimono e a gestualidade no corpo feminino japonês”, publicado na revista eletrônica YUKEI eZine, do CEO-PUC. Dawkins é um antropólogo evolucionista queniano e, apesar da aparente distância que a teoria desenvolvida por ele possa representar à primeira vista para a história do quimono, sua idéia parece coincidir bastante sobre o processo gradativo de transformação dessa tradicional vestimenta japonesa e de seus desdobramentos sociais.

Pelas eras da história do arquipélago

“Como em qualquer outra sociedade, há regras no Japão sobre tipos e cores de roupas para se vestir em várias ocasiões. As regras sobre o quimono são mais importantes no Japão do que as regras sobre as roupas no Ocidente. O quimono reflete um tempo passado no qual códigos sociais referentes a status eram importantes. Também a distinção entre situações formais e informais era levada bastante a sério”, escreve Noriko Kamachi em Culture and customs of Japan (inédito em português). Segundo a autora, hoje, raramente se vê quimonos nas ruas, mas isso não significa que os japoneses não apreciem o traje. “Ao contrário, eles [os japoneses] acreditam que essa é a roupa mais agradável e, esteticamente, a que melhor lhes cai”, rebate.


“Regras para o quimono no Japão são mais importantes do que as regras sobre as roupas no Ocidente”, afirma a pesquisadora Noriko Kamachi

A realidade descrita por Noriko em seu livro pode ser encarada como resultado de um percurso histórico que, inevitavelmente, culminaria com os quimonos guardados no armário e retirados, hoje, apenas em cerimônias especiais. O gestual japonês do passado, estudado por Cecília Saito, comprovadamente já adquiriu novas características nos dias atuais, o que não suportaria a vida e as tarefas contemporâneas da mesma forma que antes, ainda que as indústrias modernas do quimono, com linhas pré-combinadas e prontas para vestir trabalhem em sentido oposto. “Seria uma resposta à necessidade de sobrevivência do quimono no século XXI, tentando fazer os ajustamentos a um corpo miscigenado, que não mais se adapta ao desconforto da vestimenta antiga?”, questiona Cecília em seu artigo.

Pesquisas históricas documentam que, assim como uma série de outros aspectos culturais adaptados e incorporados às tradições sociais japonesas, o quimono também teve influências chinesas ao longo de sua trajetória. O contato estabelecido em eras antigas com as dinastias da China proporcionou trocas culturais que abarcaram também o ato de vestir. Dessa forma, têm-se no guarda-roupa chinês peças precursoras do que hoje se conhece como quimono.

Ao longo das eras japonesas, no entanto, o traje foi assumindo aspectos políticos e comerciais, com reflexos sobretudo nas relações sociais.

Poder sobre o quimono

Grosso modo, pode-se considerar que cada mudança de poder da história do Japão iniciou um novo capítulo na evolução do quimono. Isso porque a vestimenta refletiu gostos e preferências de quem ditava as regras, independentemente da era em questão. E as mulheres, ao longo de sua luta por independência social, foram grandes alvos dessas determinações. Assim, parece estabelecer-se uma relação de submissão contínua: a política influindo sobre o quimono, que, por sua vez, atuou como elemento controlador do comportamento feminino. Cecília Saito dá um exemplo: “Do período Muromachi até o Momoyama, ocorre a replicação da extravagância e do brilho nos desenhos da moda, particularmente, devido ao gosto do líder militar Oda Nobunaga”.

O desenho da roupa e os novos traços agregados por ela durante esse processo histórico foram determinantes na limitação das vontades e dos anseios femininos – e mais uma vez o gene egoísta masculino se fez presente. A estudiosa Yasuko Tohyama faz uma leitura crítica do quimono e não poupa detalhes para argumentar a respeito dos aspectos restritivos da roupa. Segundo ela, o quimono influencia e regula o comportamento não-verbal japonês, especialmente para a mulher; além disso, a vestimenta é inconveniente para o comportamento ativo de quem a veste.

Por trás da beleza

O corte é diferente, exótico. O tecido tem belas cores e padronagens cuidadosamente escolhidas. Acompanhado de seus acessórios, o quimono compõe um todo majestoso, com traços incrivelmente étnicos: basta “bater os olhos” para associar a imagem da roupa à mulher japonesa e aos costumes do arquipélago. Contudo, cores e cortes ocultam uma leitura social de amarras preocupantes.


Em desfiles e eventos específicos de moda, o quimono ganha destaque pelo fascínio que provoca, principalmente no povo ocidental

“O padrão de comportamento da mulher que usa o quimono estabelece que não se deve abrir muito a boca, pois isso significa a quebra do silêncio que envolve o traje”, observa Cecília Saito. Além de poder representar, a um exame superficial, detalhes como hierarquia social, ocasião e até mesmo o estado civil de quem o usa, o quimono conta com características limitadoras, possivelmente estas as responsáveis por séculos de submissão feminina ao sistema. “Estes padrões de comportamento teriam reprimido o corpo feminino pelos seus códigos próprios, ou pela submissão às leis, poderiam ter internalizado o ‘tempo presente’”, reflete Cecília.

O corte dos braços não permitem movimentos mais amplos; os sapatos apresentam capacidades reduzidas de ação e o obi (faixa), abre-se com facilidade. “As pernas também podem facilmente aparecer sobre a cauda do quimono”, completa Tohyama. Está, assim, montado um quadro de intencionalidades dominantes sobre usuárias dominadas, rompido com a abertura ao Ocidente e a absorção de costumes que, gradativamente, foram “soltando” as amarras do quimono. A abertura comercial instigou na mulher japonesa o desejo de consumo e também o de vestir roupas mais confortáveis, menos pesadas. Traços mais libertadores incorporaram-se ao vestir da japonesa, culminando com a moda contemporânea de estilos coloridos e até exagerados. “São corpos que não desejam a diferença de gêneros, que respondem ao processo de evolução operado pela seleção natural”, conclui Cecília.


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