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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010

Ratinho preto... ratinho branco...
Eles representam a sucessão da noite e do dia... o passar dos anos... os dias de vida se esvaindo
 
Fotos: Divulgação

Um viajante caminhava tranqüilamente pelas trilhas da montanha quando um ruído estranho o fez parar para buscar a origem. Mas, ao se voltar e olhar para trás, estremeceu ao ver que um enorme e feroz tigre corria em sua direção vorazmente. Desesperado, o viajante correu em disparada, mas qual não foi o seu desespero ao ver que à sua frente não havia mais caminho, senão um precipício!

– Este é o meu fim... – pensou o viajante, quase já desistindo da fuga. Entretanto, num relance, ele notou que havia um cipó de glicínia enroscado na grande árvore àbeira do precipício e que pendia como uma corda despenhadeiro abaixo.

– Isto é uma graça divina, muito obrigado!
E, assim dizendo, pendurou-se no cipó e, por um triz, safou-se de ser devorado pelo tigre.
– Estou salvo! – respirou aliviado o viajante, mas, nesse momento, ele se deu conta de que suas mãos não agüentariam o peso do seu corpo por muito tempo... Decidiu, então, descer e, ao olhar para baixo, qual não foi sua surpresa ao se deparar com uma serpente gigante que o espreitava ameaçadoramente, com suas presas afiadas à mostra e só esperando para dar o bote! Novamente acuado, o viajante se balançou para tentar encontrar um apoio nas rochas... mas novamente foi surpreendido por quatro víboras que, de sua toca nas rochas, o ameaçavam com suas línguas vermelhas e bifurcadas, como se o alertassem:
– Se chegar mais perto, lhe morderemos.

De repente, começou a sentir uma vibração no cipó e, ao olhar para cima, algo estava roendo a base da planta que ainda o mantinha vivo... eram dois ratinhos... um pretinho e um branquinho.
– Desta vez, não tenho mais salvação... a morte é certa – e um tremor correu por todo o seu corpo. Nesse momento, de uma colméia que pendia a uns dois metros acima de sua cabeça, uma gota de mel pingou e, por acaso, caiu justamente dentro de sua boca.
– Humm, que delícia – o doce sabor do mel o levou a um tal estado de êxtase, que o fez se esquecer da realidade de sua situação desesperadora e sem esperanças.

Qual a mensagem que está figurada nesta história?

A trilha da montanha por onde caminhava o viajante é a representação de nós, seres humanos, trilhando os altos e baixos do caminho de nossas vidas. Vagamos pelos caminhos quando, repentinamente, nos damos conta de que há uma fera logo atrás a nos perseguir. Esta fera é nada mais que o karma que cada um de nós carrega, nossos inúmeros atos praticados no passado. Nós, seres humanos, buscamos com todo o esforço livrarmo-nos de más ações praticadas no passado e, por um momento, conseguimos ter a sensação de que conseguimos. É como o viajante sentindo-se salvo ao pendurar-se no cipó. Entretanto, logo abaixo, o que o espera é uma grande serpente, com sua enorme mandíbula aberta como se fosse um caixão de tampa aberta apenas aguardando pelo defunto. Nesses momentos, a tendência é pensarmos: “Não quero morrer!” Tateamos na esperança de encontrar um local seguro que permita a continuidade de nossa vida, mas acabamos nos deparando com as quatro cobras venenosas que representam os quatro elementos: terra, água, fogo e vento, ou seja, os elementos que constituem toda e qualquer matéria, e a quebra no equilíbrio desses quatro elementos pode causar sofrimento e temor ao ser humano, além de poder até extinguir a vida, quando em forma de catástrofes como terremoto, inundação, incêndio e ventania.

O cipó de glicínia é o fio da vida, o tempo de vida de cada indivíduo. Os ratinhos preto e branco que roem a base do cipó são representações da sucessão da noite e do dia... o passar dos anos... os dias de vida se esvaindo. Em meio a todas essas circunstâncias cheias de temor e sofrimento, por mais incrível que pareça, o ser humano consegue não se mostrar abatido, motivado pelas gotas de mel que caem na boca... são os cinco desejos: bens materiais, luxúria, sede e fome, status social e sono. Busca-se lucro e mais lucro para saciar o desejo de bens materiais... esbanja-se de comida e luxúria... espera reconhecimento e status sem sequer se esforçar. São estes desejos que fazem parte da natureza humana e, aceitando-os ou não, fazem parte do viver. Entretanto, motivados em excesso para saciar seus desejos, muitos acabam se perdendo em seus caminhos, não percebendo a rentável poupança que é acumular más ações que, na verdade, são os karmas negativos.

O essencial é a forma como agimos ao encararmos uma situacao extrema ou sem esperanças. Para todo efeito, existe uma ação e, por isso, precisamos nos valer de equilíbrio, sabedoria e bom senso para discernirmos de forma correta. Como conseguimos!? Um dos meios é a prática de zazen – meditação... envolvidos pelo silêncio... corpo e mente encontram a serenidade e o caminho do equilíbrio.


Créditos: O texto original é de autoria do ex-bispo superintendente-geral da Escola Sotoshu na América do Sul e atual reverendo do Templo Kotakuji (Hokkaido), Koichi Miyoshi, e tradução de Cristina Izumi Sagara.
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