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Sexta-feria, 03 de setembro de 2010
Wagashi: pequenas jóias da tradição
Contato com os chineses fez a variedade de doces japoneses aumentar,
com a introdução de novos ingredientes, como o cará

O anko tornou-se ingrediente essencial dos doces na Era Muromachi, entre os séculos XIV e XVI

(Texto: Yoko Fujino/ipcdigital.com | Fotos: Divulgação)

A cada estação do ano, as doçarias japonesas ostentam, em suas vitrines, guloseimas que são como pequenas esculturas coloridas em forma de flores e plantas. Na primavera, as cores rosa, amarelo e verde claro dos wagashi, os doces japoneses, representam a paisagem da época: as flores de cerejeira, os campos floridos, as primeiras folhas que brotam após o inverno rigoroso...

A relação dos japoneses com os doces vem de centenas de anos. No começo, a palavra kashi era usada para frutas, castanhas e cereais e produtos feitos com eles. Como eram comidos entre as refeições, ou nos intervalos do trabalho, era importante que o kashi fosse fácil de carregar e que não estragasse com facilidade.

A variedade de doces aumentou com o contato com os chineses. Além de frutas e cereais, os japoneses incorporaram outros ingredientes, como o cará (yamaimo) e a farinha de trigo. O anko, ou doce feito de feijão azuki, passou a ser ingrediente principal dos doces na Era Muromachi (século XIV até meados do século XVI), com o aumento da produção de açúcar. Antes, o satogashi (doce de açúcar, literalmente) era consumido pelos nobres e ricos. “O kashi do povo não era tão doce e a maior parte dos manju [bolinho] era recheada com verduras”, explica Keiko Nakayama, pesquisadora-chefe do Arquivo Toraya, pertencente a uma das doçarias mais antigas do Japão.

Especialmente na cerimônia do chá, o doce tem cores e formas que antecedem a estação do ano. Assim, no primeiro dia do ano, come-se o hanabiramochi (mochi de pétala de flor), um doce feito com mochi muito fino, bardana (gobo) cozida e missô (pasta de soja) doce. Comendo o hanabiramochi, as pessoas esperavam, ansiosas, o fim do inverno e o desabrochar das primeiras flores.

Entretanto, nem sempre os doces estiveram ligados às estações do ano: o sakuramochi, que hoje é vendido somente até o fim da florada das cerejeiras, já foi encomendado pelos nobres em pleno outono, segundo registros. Muitos doces usam as estampas tradicionais japonesas, que também são usadas na tecelagem de quimono, na cerâmica e nas artes decorativas.

As flores padronizadas, como a flor de ameixeira e de íris, que representam respectivamente janeiro/fevereiro e o mês de maio, são muito usadas por doçarias. Já o nome dos doces são tirados de haicais e obras da literatura tradicional. São nomes sugestivos, que fazem as pessoas lembrarem certas imagens, e não a descrição direta. Por exemplo, o doce kiritsubo alude ao primeiro capítulo de Genji Monogatari (Contos de Genji), no qual o imperador se apaixona pela dama da corte Kiritsubo. Desse romance, nasce Genji, personagem principal dessa obra do século XI.

Mas, hoje em dia, as pessoas conhecem menos a literatura e a padronagem tradicional está menos presente no cotidiano. Assim, muita gente não consegue fazer a ligação entre o nome, a estação do ano e o próprio doce e perdem a oportunidade de compreender a intenção do anfitrião ao servi-lo.

As próprias doçarias também estão perdendo o hábito de relacionar o doce às estações. O doce popularmente conhecido por ohagi, na verdade um bolinho de arroz coberto com doce de feijão, recebe o nome de botamochi, que vem de botan-mochi, ou mochi de peônia, flor típica da primavera. Este mesmo doce é chamado ohagi no outono, que alude ao hagi, planta típica do outono. “Atualmente, as doçarias estão usando mais o nome ohagi, independentemente da época do ano”, constata Kayo Fujita, relações-públicas da Toraya.

A maioria dos doces de alto padrão vem de Quioto, onde ficava a Corte Imperial até o século XIX. Com a transferência do imperador para Tóquio, muitas doçarias mudaram para a nova capital. Em Tóquio, muitos doceiros adaptaram os produtos às características da região. “Em Tóquio, os doces têm nomes mais diretos, que fazem menos alusão a obras literárias”, explica Keiko Nakayama.

Mas outras regiões do Japão têm os seus doces: em Nagóia, o manju é feito com missô, produto local bastante popular. Na região leste de Gifu, há muitos doces feitos com castanhas, enquanto, na região de Ogaki, o mais conhecido é o mizu-manju, feito de azuki coberto com gelatina de origem vegetal. Como usa ingredientes simples, a qualidade da água é primordial – é justamente isso que o torna doce típico da região, conhecida pela qualidade da água.

Em Shizuoka, o mochi coberto com pó de soja torrado (kinako) é chamado de abekawamochi, porque era servido em casas de chá próximas às margens do Rio Abe. Mas, nas regiões afastadas de Shizuoka, o mesmo prato é chamado de kinako-mochi.

 
Dois doces, um só nome

Um dos doces mais consumidos na primavera, o sakura-mochi é diferente em Tóquio e no resto do país. Na maior parte do Japão, ele é feito de anko (doce de feijão azuki) coberto com domyoji, que é uma massa de arroz partida e cozida em banho-maria. Em Tóquio, o anko é envolto em uma espécie de panqueca de farinha de trigo.

Em ambos os casos, a massa que envolve o anko tem coloração rosa e é coberta com folha de cerejeira salgada, que perfuma o doce. Mesmo com essas características comuns, os dois doces são totalmente diferentes, principalmente por causa da textura.

 
Conheça alguns dos doces japoneses por região

TÓQUIO E QUIOTO
Doces típicos: basho awase

HAMAMATSU (Shizuoka)
Doces típicos: nanohana e yozakura

OUMI- HACHIMAN (Shiga)
Doces típicos: nodogoshii chiban

NAGÓIA (Aichi)
Doces típicos: miso manju e maccha uiro
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