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Sexta-feria, 03 de setembro de 2010
Giri / Ninjô
Sentimentos conflitantes na literatura japonesa
Sem a dramaticidade da literatura, as relações sociais entre os japoneses apresentam nuanças do giri/ninjô

Fotos: (Divulgação)

Entre as artes, a literatura é a que melhor retrata o conflito entre o giri e o ninjô, isto é, o choque entre os sentimentos de dever para com o próximo e os sentimentos humanos de amor, afeição, gratidão, simpatia e lamentação, que permeiam as relações entre pais e filhos, homens e mulheres, patrões e empregados, etc.

O resultado do conflito entre esses dois conceitos é levado às últimas conseqüências em peças de bunraku (teatro de bonecos) como Kanadehon Chûshingura (A Liga dos 47 Samurais) e Shinjû Ten no Amijima (Duplo Suicídio em Amijima). Na primeira, ocorre o seppuku (auto-imolação) e, na segunda, ocorre o shinjû, duplo suicídio amoroso, cometido por dois amantes que foram impossibilitados de viver juntos neste mundo.

Em Kanadehon Chûshingura (escrita por Takeda Izumo, Miyoshi Shôraku e Namiki Senryû), Asano Takuminokami, senhor da província de Akô, é obrigado a cometer seppuku para limpar seu nome (giri para com o nome) após ser humilhado publicamente. Sabendo que a morte de seu senhor foi injusta e maquinada por Kira Kozukenosuke; e, como pagamento do on (veja quadro ao lado) para com este, 47 leais samurais de Asano resolvem vingar sua morte. Após a realização da vingança, eles são ordenados pelo bakufu (xogunato) a ter o mesmo destino de seu senhor, ou seja, o seppuku. Como os guerreiros deviam on para o xogunato, os 47 samurais não tiveram outra opção senão acatar a o r - dem. Essa peça foi baseada em fatos ocorridos em 1701, na província de Akô ( a t u a l Hyogo).

A peça Shinjû Ten no Amijima, escrita por Chikamatsu Monzaemon, e encenada em 1721, é a mais conhecida sobre o tema duplo suicídio amoroso. Supostamente baseada no suicídio que ocorrera na cidade de Osaka, também em 1721.A dramaticidade da peça está no conflito giri/ ninjô vivido por Jihei, um mercador de papel, que se encontra dividido entre o dever para com sua mulher e família e o sentimento de querer viver com a cortesã Koharu. Nesta peça, Jihei suicida- se com Koharu, na impossibilidade de ficar com ela em vida. Jihei é casado com Osan e tem seus deveres para com a família; Koharu, sendo uma cortesã, tem seus deveres para com seu proprietário. Como Koharu, na peça, teve sua liberdade resgatada por Tahei, passou a ter um dever para com este. Por causa disso, na impossibilidade de viverem juntos nessa vida, ela e o mercador cometem shinjû.

Sem a dramaticidade da literatura, as relações sociais entre os japoneses apresentam nuanças do giri/ninjô. Podemos dizer que as convenções sociais são regidas pelo giri que, na maior parte dos casos, sobrepõe-se ao ninjô. Assim, no coletivo, espera-se uma atribuição de valor maior ao giri que ao ninjô, embora essa prática nem sempre seja adotada no mundo contemporâneo.

Para compreender melhor as relações entre o on, o gimu e o giri, leia o quadro.

 
Quadro de obrigações da sociedade japonesa, segundo Benedict.

ON

Obrigações incorridas passivamente, ou seja, são obrigações do ponto de vista do recebedor passivo. As obrigações decorrentes do on podem ser pagas pelo gimu e o giri.

GIMU

Pagamento integral dessas obrigações continua não mais do que parcial, sem limite de tempo. Deve-se gimu ao imperador, ao país, aos pais e a ancestrais.

GIRI

Pagamento integral do on, mas com limite de tempo. Há o giri para com o mundo – família, amigos, pessoas não aparentadas (decorrente de favores aceitos) e senhor feudal – e giri para com o nome – limpeza de honra, inteireza de caráter, etc.

Colaboradores: Carlos Roberto Amorim Glaujor e José Carvalho Vanzelli
Revisão: Prof. Wataru Kikuchi
Crédito: Bolsistas de Toyama 2005/2006, curso de Língua e Literatura Japonesa, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (USP). Coordenação: Koichi Mori. Assessoria técnica: Patrícia Izumi, Centro de Estudos Japoneses(USP).
Tel.: (11) 3091- 2426 (secretaria)/3091-2423 (biblioteca).
Site: www.fflch.usp.br/dlo/cejap
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