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Sexta-feria, 03 de setembro de 2010
Além das palavras
Para cada língua, existem gestos que a completam; se o idioma é diferente, os gestos também o são
Segundo pesquisadores conceituados, a comunicação depende 35% de palavras e 65% de expressões não-verbais

(Fotos: Divulgação)

Como sabemos, a língua vai muito além das palavras. No nosso dia-a-dia, utilizamos, junto com ela, uma série de formas de expressões corporais, como gestos, olhares e sorrisos. Segundo os pesquisadores mais conceituados, a comunicação depende 35% de palavras e 65% de expressões não-verbais. Portanto, para cada língua existem diversos gestos que a completam, ou seja, se a língua é diferente, os gestos também o são.

Um caso bastante representativo e muito familiar é o choque cultural que há entre os gestos brasileiros e os gestos japoneses, pois, se por um lado um é visto como exagerado, o outro é sutil e sugestivo.

Tais diferenças podem causar tanto incômodos como situações muito engraçadas. Por exemplo, quando a ponta do polegar é unida à ponta do dedo indicador, formando um círculo, isto simboliza dinheiro, ou indica “OK” no Japão. Quando significa dinheiro, o gesto é, em geral, feito na altura do peito, com a palma da mão virada para o falante; e quando significa “OK”, ele é feito na altura da cabeça, com a palma da mão virada para o interlocutor. O problema, neste caso, é que ,no Brasil e em outros países, esse gesto é obsceno, pois simboliza o “ânus” e expressa um profundo desprezo para com o interlocutor, podendo ser também acompanhado dos dizeres: “Aqui ó”. Outro gesto que também poderia causar uma interpretação equivocada é aquele no qual os dois dedos indicadores são erguidos na altura dos olhos. No Japão, os dedos representam os chifres de um oni, (demônio, ogro), mas no Brasil indicam “corno”, “cornudo”, ou seja, um marido que foi traído pela esposa.

Existem também gestos que não criam situações adversas, como os dos exemplos citados, apenas diferem de país para país. Para referir-se a si próprio, por exemplo, o japonês expressa o watashi (eu), colocando o dedo indicador na ponta do nariz, enquanto, no Brasil, costuma- se colocar a mão na altura do peito. Outro gesto bastante ilustrativo do japonês que diverge do brasileiro é a forma de cumprimentar uma pessoa. Enquanto o japonês se curva para o interlocutor, o brasileiro dá o aperto de mão, quase todas as vezes que se encontra com os amigos e, às vezes, até com os familiares.

Além dos gestos que utilizamos para expressar uma informação ao interlocutor, como o “OK” japonês ou o aperto de mão brasileiro, existem gestos que são reações ao meio externo, ou seja, que não tiveram uma intenção objetiva, são espontâneos. Um exemplo interessante é a risada. Se compararmos a risada de uma japonesa com a de uma brasileira, notaremos, de maneira geral, que a brasileira solta uma risada alta e expansiva, enquanto a japonesa é mais contida, leva a mão à boca e ri mais baixo; mas isso não significa que a sua risada seja menos sincera do que a da brasileira. Elas apenas se expressam de maneiras diferentes, de acordo com seus próprios valores socioculturais.

Em alguns casos, por mais sutis que sejam as diferenças, existe a possibilidade de ocorrerem pequenos enganos. Assim, ao mesmo tempo em que a funcionalidade do gesto dentro do diálogo é perdida, percebemos quão importante ele é. Se os gestos dos brasileiros e dos japoneses fossem iguais, haveria mais eficácia na transmissão dos verdadeiros sentimentos e intenções, o que propiciaria uma frustração menor ao emissor e provocaria menos choques ao receptor, havendo uma comunicação mais construtiva. No entanto, neste processo, perderíamos uma série de valores culturais expressos por esses gestos que refletem a sociedade à qual o emissor se encontra inserido, e a riqueza e o intercâmbio cultural de um diálogo entre duas pessoas de sociedades diversas, como a do brasileiro e a do japonês, seriam perdidos.


Colaboradoras: Julia Toffoli e Yumi Matsue
Revisão: Profa. Dra. Luiza Nana Yoshida
Crédito: Bolsistas de Toyama 2005/2006, curso de Língua e Literatura Japonesa (FFLCH/USP) Coordenação: Koichi Mori.
Assessoria técnica: Patrícia Izumi. Centro de Estudos Japoneses/USP
Tel.: (11) 3091-2426 (secretaria),3091-2423 (biblioteca)
Site: www.fflch.usp.br/dlo/cejap

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