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Sábado, 13 de março de 2010
 
O Japão na visão do cinema ocidental
Grandes produções hollywoodianas têm o Japão como tema central. Será, entretanto, que esses megassucessos conseguem transpor para a Sétima Arte de forma fiel os elementos culturais da sociedade japonesa?
 

(Texto: Erika Horigoshi | Fotos: Divulgação e Reprodução)

Ocidente quer saber mais sobre o Japão. Bem, isso é o que se pode concluir com base nas diversas iniciativas que, tendo o Japão como tema, têm atraído a atenção de um número cada vez maior de pessoas “deste lado do globo”. No mundo do cinema, esse fenômeno não é diferente. Ao longo dos últimos anos, Hollywood conseguiu emplacar nas telas de vários países, não apenas dos Estados Unidos, verdadeiros “blockbusters”, grandes filmes de sucesso de bilheteria e de crítica.

Para aqueles que, não tendo contato maior com a cultura japonesa nem tipo algum de ascendência familiar, assistir a esses filmes pode ser uma “porta de entrada” para entender mais sobre o povo do país do Sol Nascente. Entretanto, esse processo se torna preocupante quando as produções cinematográficas em questão não passam uma impressão muito próxima à realidade que os japoneses vivem ou já viveram em sua história. Nesse contexto, fica a questão: até onde a inverossimilhança na transposição de elementos culturais para as telas de cinema pode interferir na imagem que seus espectadores passam a ter sobre o Japão?

 
Tesouro cultural japonês: o Samurai

Valores: película mostra as qualidades dos samurais

Pelo menos duas grandes produções do cinema americano sobre o Japão tiveram grande impacto sobre o público e também acarretaram enormes sucessos de bilheteria. Trata-se d’O Último Samurai e de Memórias de uma Gueixa, tramas que têm em comum o contato com fortes figuras do universo cultural japonês e que, nessa mescla, apresentam um perceptível “embate” que caracteriza produções que procuram ter essência oriental, a exemplo de suas tramas, mas que, por razões comerciais, possuem traços da produção de mercado ocidental. “O Último Samurai é uma produção americana e, como tal, retrata a figura do samurai de acordo com os estereótipos característicos do cinema americano”, diz Marco Souza, professor doutor em Comunicação e Semiótica, pesquisador e editor da revista eletrônica Yûkei e-zine do Centro de Estudos Orientais da PUC de São Paulo. “Acredito que O Último Samurai tenha tentado realizar uma abordagem convincente sobre um dos ícones da cultura japonesa, mas acabou caindo numa adaptação do imaginário da platéia americana sobrecarregada pelo lado poético”, complementa a pesquisadora do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP e da Escola Modelo de Língua Japonesa de Goiás, Cecília Noriko Saito.

Entretanto, pelo ponto de vista cinematográfico, O Último Samurai consegue cumprir relativamente bem o difícil trabalho de levar a platéias ocidentais um pouco sobre o importante período histórico retratado no filme. “Acredito que não seja a função de um filme de ficção, mesmo de uma cinebiografia, retratar fielmente os conceitos. Esse tipo de função caberia em alguns tipos de documentários. O Último Samurai trata de um herói que perdeu a honra e a crença por acatar ordens de seus superiores e que irá recuperar sua crença por meio dos valores samurais”, observa Marcos Takeda, coordenador de cursos da Educine, Associação Cultural Educação e Cinema. Segundo ele, a produção estrelada por Tom Cruise e Ken Watanabe foi respeitosa e conseguiu passar para o espectador o valor do samurai.

Ricardo Matsumoto, editor da revista SET, concorda com Takeda: “Em minha opinião, O Último Samurai é um filme brilhante. Mostra com extremo respeito a cultura japonesa, principalmente no que se refere à relação familiar entre pai e filho. O filme não é uma unanimidade, mas eu a considero uma produção de primeira linha”, avalia.

 
Curiosidade: alguns erros de O Último Samurai

A pedido do Zashi, a professora Maria Fusako Tomimatsu, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), analisou algumas cenas do filme O Último Samurai. Veja, a seguir, as observações dela sobre a transposição de conceitos culturais para a película:

• “A questão da honra do samurai no final da Era Edo, às vésperas da Era Meiji, já não era vista com o fanatismo que mostra o filme. Um século de reclusão do Japão ao Ocidente, com exceção do contato com alguns países, tornou extinta a função do samurai como guerreiro.”

• “Em uma das cenas da cidade, entre os transeuntes, há a presença de ‘gueixas’ fora de contexto, bem como de outros figurantes posicionados ali como um ‘pout-pourri’ figuras humanas.”

• “Na batalha no meio do bosque, a vegetação filmada, de troncos e xaxins, é estranha ao clima japonês; bem como as casas japonesas construídas como cenário não condizem com o desenho do relevo do Japão, repleto de montanhas e colinas.”

• “Há uma cena em que damas da corte são apresentadas ao fundo vestindo trajes que remetem ao século V. Nesta mesma cena, o jovem imperador, em primeiro plano, está vestindo um traje com o qual jamais poderia aparecer circulando pelos corredores do palácio.”

• “Ainda sobre o príncipe, há um momento no filme em que ele aparece vestindo um quimono branco e um hakama vermelho. Essas cores são utilizadas por sacerdotisas [miko] de templos xintoístas.”

 
Um mesmo assunto; ângulos diferentes

Política: drama de Iwo Jima foi bem desenvolvido por Clint Eastwood

No grupo de produções hollywoodianas sobre o Japão, Cartas de Iwo Jima e Questão de Honra certamente constituem um caso à parte. Produções que abordam temas delicados, como guerras, já são vistas de forma diferente pelo mercado. Em geral e proporcionalmente ao trabalho de pesquisa realizado, elas passam a integrar a “categoria” de fidelidade que beira a dos documentários. “As perspectivas mostradas por ambos são distintas e, em tempos de atitudes politicamente corretas, Cartas de Iwo Jima surge como uma possibilidade de dar voz a quem o cinema de Hollywood normalmente não deu durante décadas”, podera o professor Marco Souza. A pesquisadora Cecilia Saito observa o cuidado com a pesquisa dos filmes dirigidos por Eastwood: “Cartas... apresenta fatos históricos e seus aspectos com o devido cuidado de uma produção sem excessos”.

Dois filmes produzidos para mostrar ângulos diferentes de um mesmo fato histórico (a grande batalha na ilha japonesa de Iwo Jima), o projeto de grandes proporções encabeçado por Clint Eastwood foi extremamente bem recebido pela crítica especializada. O público, no entanto, conferiu a esses dois filmes uma modesta bilheteria. “A idéia de Clint Eastwood de mostrar a batalha pelos dois lados foi acertada. Pouca gente em Hollywood costuma tomar atitudes como essa. Os filmes foram sucesso de crítica, mas não de bilheteria. São produções que mostram que ninguém vence uma guerra”, analisa Ricardo Matsumoto, da SET.

A professora da Universidade Federal de Goiás e pesquisadora do CEO da PUC-SP, Clélia Mello vai mais longe, ao relacionar a ideologia política do diretor americano ao resultado das produções-irmãs sobre Iwo Jima. “Eastwood é um político de carteirinha. Uma plataforma discursiva que agrade a ‘gregos e troianos’ é o sonho dos partidos de centro e, certamente, da indústria de entretenimento. Em quaisquer circunstâncias, não se posicionar é uma atitude política”, avalia.

 
As gueixas de Hollywood e o público do arquipélago

Dualidade: orçamento milionário e vários erros conceituais

Unanimidade é uma palavra que não se pode aplicar à megaprodução Memórias de uma Gueixa. Sucesso de bilheteria entre 2005 e 2006, a produção assinada por Steven Spielberg causou grandes manifestações no Japão, pelo fato de utilizar atrizes chinesas nos papéis de gueixas e pelos vários erros conceituais presentes na película. “As críticas são procedentes. As atrizes chinesas não conseguiram interpretar a essência de uma figura feminina japonesa. Não basta a ‘embalagem’ para se tornar gueixa. Os gestos, o olhar e a postura denunciam que elas não são japonesas. As críticas vieram do público japonês, justamente pelo fato de as gueixas do filme serem tão inverossímeis, que fizeram com que a produção transmitisse uma inverdade ao público que desconhece a cultura japonesa”, analisa Maria Fusako Tomimatsu, diretora do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa da Assessoria de Relações Internacionais da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

De acordo com Marco Souza, a superprodução protagonizada por Zang Ziyi e Ken Watanabe foi prejudicada em sua aproximação com a realidade da verdadeira gueixa por obedecer a questões práticas e mercadológicas: “A escolha das atrizes chinesas levou em conta o fato de elas serem conhecidas do mercado americano”.

Já Marcos Takeda apresenta um ponto de vista mais concessivo em relação à produção inspirada na história real de Mineko Iwasaki. “Algumas das chamadas licenças poéticas são realmente necessárias para que o filme não crie aversão ao público. Um exemplo disso é que, hoje, mostrar uma história antiga e seguir fielmente costumes históricos, como o casamento entre homens e meninas adolescentes de 12, 13 anos é considerado um absurdo; entretanto, era o que ocorria”, cita.

As críticas gerais, contudo, tanto do povo japonês, quando do restante do público conhecedor dos costumes do país oriental de fato tiraram o brilho da película de orçamento milionário (mais de US$ 80 milhões). “Particularmente, não gosto de Memórias de uma Gueixa. E não é pelo fato de terem colocado atrizes chinesas nos papéis principais, mas porque o filme é, realmente, ruim. Trata-se de um exemplo de como Hollywood pode dar uma visão errada da cultura japonesa”, opina Ricardo Matsumoto, da revista SET.

 
Remakes e o terror japonês

Dúvida: em Água Negra, optou-se pelo drama, e não pelo suspense

Susto: Hollywood caprichou nos efeitos especiais de O Chamado

Quem não sentiu pelo menos um ligeiro calafrio ao acompanhar as tramas de O Chamado, O Grito, ou Água Negra? A resposta, claro, vai depender não apenas do ponto de vista do espectador, mas também de qual “versão” ele assistiu: as originais japonesas, ou as “mercadologicamente modificadas” americanas. “Hollywood tem passado por uma crise de criatividade e anda buscando inspiração em filmes antigos e também em produções de outros países. Os filmes de terror japonês se mostraram lucrativos em seu país natal e os estúdios americanos viram esse potencial”, explica o editor da revista SET, Ricardo Matsumoto.

As questões que causaram calorosos debates entre o público que aprecia o terror nas telas do cinema se deram principalmente em torno da questão da refilmagem. Afinal, esse tipo de produção tira o mérito da versão original? As alterações que o remake proporciona são bem vistas? “Notam-se diferenças na linguagem cinematográfica japonesa e americana, como por exemplo a tendência oriental de evitar ao máximo os closes, deixando a câmera mais estática, ao passo que a filmagem americana utiliza closes em abundância e muitos efeitos especiais”, diz o coordenador de cursos da Educine, Marcos Takeda.

Segundo Takeda, o processo de adaptação das refilmagens é necessário para deixar o roteiro plausível para a cultura de seu público espectador, no caso, o americano. “É preciso amarrar mais as pontas, explicar cada detalhe e cada personagem que entra na trama precisa ter suas características. Hollywood tem roteiristas experts nesse tipo de transposição”, afirma.

Um dos auges das discussões sobre os remakes do terror japonês parece ter sido quando Hollywood, ao refilmar Água Negra (dirigido pelo brasileiro Walter Salles), decidiu mudar o final da trama. “Walter Salles queria muito mais um drama do que um suspense e os produtores queriam transformar Água Negra em um novo O Chamado”, comenta Matsumoto.

“No remake, o foco no ‘horror’ é amenizado, principalmente no caso de Água Negra. Já a essência da cinematografia japonesa trabalha muito mais essa questão”, analisa a professora e pesquisadora Cecilia Noriko Saito.

O que fica dessa verdadeira “onda” de remakes que chega ao mercado cinematográfico constantemente é a visão artística e também a mercadológica. “Todo produto cultural pode ser reinventado. O remake é ainda mais válido se nos traz a curiosidade de assistir à versão original”, opina o professor e pesquisador Marco Souza. “Nos últimos tempos, houve uma avalanche de refilmagens. Não sou totalmente contra isso. Se a produção é feita de maneira respeitosa, ela não tira o valor da versão original”, afirma Ricardo Matsumoto.

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