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Sexta-feria, 03 de setembro de 2010
Especial
Cultura Pop Japonesa ganha status global graças ao esforço de fãs
Traduções não autorizadas põem em xeque a relação entre público e propriedade intelectual

Mangás e animês têm atraído uma ampla audiência de fãs que os estão distribuindo com suas próprias traduções e performances na internet. Isso é o que demonstra uma recente pesquisa realizada por um centro acadêmico britânico.

Lee Hye-Kyung, da Universidade de Londres, disse que esse processo mostra novas maneiras pelas quais a cultura pop do Japão está se difundindo na era da globalização. Mas ela acredita na existência de um conflito em potencial no futuro, se as editoras japonesas decidirem tomar medidas legais contra as traduções não autorizadas distribuídas por fãs nos Estados Unidos e na Europa.

Lee, que finalizou recentemente a pesquisa desse fenômeno – no qual o mangá japonês é traduzido para outras línguas pelos fãs –, apresentou suas descobertas em um seminário sobre marcas do Japão globalizado, ocorrido em Londres. No Brasil, esse processo é chamado de “fansub”, em uma referência ao fã que desenvolve subtitles (legendas em inglês) tanto de mangás como também de animês.

A pesquisadora também descobriu que estrangeiros fãs devotos da animação japonesa, ou de animê, também traduzem filmes e produzem legendas para distribuição pela internet. O mesmo processo também está acontecendo com obras da literatura japonesa moderna.

Processo

O primeiro passo do fansub consiste em um fã de mangá ter acesso aos últimos lançamentos dos quadrinhos japoneses. O fã, então, digitaliza cada uma das páginas do mangá. Depois disso, ele envia as imagens por e-mail para o tradutor, que, após fazer o seu trabalho, encaminha-o para a conferência de um revisor. O próximo passo é remover o conteúdo original em japonês dos balões dos quadrinhos e inserir a tradução.

A versão traduzida é, algumas vezes, enviada a uma espécie de “controle de qualidade”, que a verifica antes de lançá-la em sites da internet, de onde o material poderá ser baixado gratuitamente pelos leitores interessados.

Lee acredita que existam mais de mil grupos praticantes desse tipo de trabalho espalhados pela rede mundial de computadores. Muitos deles estão sediados nos Estados Unidos, onde essa prática existe desde os anos 90.

Para a pesquisadora, esse processo representa um tipo diferente de relação entre as editoras e aqueles que copiam o seu trabalho.

Enquanto a indústria da música toma medidas drásticas contra os compartilhadores de material ilegais, o segmento da indústria do mangá ainda não tomou nenhum tipo de atitude legal. Lee disse ter entrado em contato com uma editora japonesa que não se mostra particularmente feliz no que se refere às traduções não autorizadas, mas essa empresa já se engajou em uma ação, coordenada com outras editoras, que visualiza o fansub como um fenômeno estrangeiro.

Ela acredita que essa disputa possa ganhar dimensões maiores no futuro e ir adiante, se o mercado de mangás tornar-se mais lucrativo no exterior. Tal processo, atualmente, atrai a atenção de uma modesta parcela do público, em comparação com outros produtos.

Lee constatou, durante sua pesquisa, que alguns scanlators (praticantes do fansub) traduzem séries de mangás, mesmo existindo a possibilidade de elas serem publicadas na Inglaterra posteriormente. Esse foi o caso de Naruto, uma série de histórias em quadrinhos, posteriormente transformada em animê, que mistura fantasia e artes marciais, quando fãs ficaram impacientes esperando a tradução oficial.

Em uma recente conferência organizada pela Fundação Sasakawa, da Grã-Bretanha, Lee ressaltou que muitos adeptos da prática do fansub contam com um “empenho missionário” para divulgar os mangás traduzidos em bases sem fins lucrativos. A motivação para tanto residiria em uma tentativa de encorajar editoras fora do Japão a adquirir os direitos desses trabalhos e traduzi-los para línguas europeias. “Eu considero o fansub um fenômeno muito interessante, que desafia a nossa percepção sobre a relação entre o público os direitos dos produtos”, afirma.

 
Mangás são quadrinhos japoneses e o termo, literalmente, significa “imagens aleatórias”. O estilo sofreu grande influência do ukiyo-e, antiga arte do arquipélago, e dos estilos de desenhos ocidentais
 
Fansubs no Brasil

No Brasil, o trabalho dos fansubs é de grande expressão. Os principais grupos estão localizados em São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília.

A distribuição dos animês traduzidos por esses núcleos é feita predominantemente pela página do Torrent (software específico para esse fim). No entanto, o acesso à produção é um pouco restrito. Normalmente, os fansubs atuam por meio de fóruns e sites que exigem o cadastro dos usuários.

Nesses fóruns, são discutidos temas como J-music, cultura japonesa, games, cosplay, séries de TV, entre outros. Entre os principais fansubs brasileiros, estão Brasil Anime Club, Shin Seiki Anime, Lum’s Club e AnimeGaiden.


Funções
A produção do fansub é um processo levado a sério e requer a participação de uma equipe especializada. Cada etapa do trabalho necessita de uma pessoa com conhecimentos específicos, veja:

• Raw-hunter e ISO-hunter:
Responsável por encontrar os animês sem legenda. Sua função é o ponto de partida de todo o processo de produção do fansub.

• Tradutor:
É a pessoa que cuida da tradução do animê. Deve ter um amplo conhecimento em expressões idiomáticas.

• Timer:
Trata-se da pessoa que temporiza as falas da legenda, sincronizando as palavras escritas com o diálogo em forma de áudio.

• Styler:
É o responsável pela escolha de fontes, estilos e cores das legendas.

• Typesetter:
Função que cria logotipos e edita trechos do animê para o português como cartazes, faixas, placas, etc.

• Karaokemaker:
É a pessoa que cuida da parte musical do processo.

• Editor:
Pessoa que analisa a tradução e os scripts, modificando o que for necessário.

• Revisor:
É quem corrige os erros de português, como as incoerências e as falhas gramaticais.

• Encoder:
Pessoa que codificará o animê sem legenda com os scripts.

• Quality checker:
Pessoa que assiste à produção para encontrar erros e incoerências.

• Webmaster:
Responsável pela “interface” do fansub com os usuários. Ele cuida do site, servidores e fóruns.

• Distribuidor:
Responsável por enviar o animê para o maior número de pessoas.

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