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(Fotos:
Museu Histórico da Imigração Japonesa)
Passados os primeiros tempos de grandes dificuldades, quando
a vida começou a melhorar, os imigrantes japoneses encontraram
tempo e meios para montar as representações teatrais
de kabuki. Quem escreve é Harumi Yamaguchi, em um artigo
para o livro Coronia Gueinoshi, de 1986.
Kabuki
(ka, canto bu, dança e ki, representação),
consolidado na Era Edo (1603/1868), é representado apenas
por homens, mesmo em papéis femininos (onnagata). Há
estudiosos que, pelas condições amadorísticas
no Brasil, as peças (ou partes delas) montadas como sendo
kabuki, não podem ser consideradas como tal.
Deixando desse lado essa discussão técnica e purista,
e guardadas as devidas proporções, é importante
reconhecer os esforços de aficionados em cultivar essas
artes tradicionais.
Harumi
lembra do ano 1931, quando ainda criança, morando na
colônia São João, na região da linha
Noroeste, o líder era Iritani, presidente da Associação
de Japoneses local, especialista em joururi (narrativa acompanhada
de shamisen, incorporada ao teatro bunraku e kabuki na Era Edo).
Conta que, anualmente, na festa de São João, quando
a comunidade se reunia para as competições de
sumô e apresentações artísticas,
Iritani era muito aplaudido por suas apresentações.
E tinha como acompanhantes Teraoka Heimon e Mizutake, estes
responsáveis pelos números de danças, teatro
e mágica.
A
primeira peça de kabuki
De acordo com ele, na festa de São João de 1932,
a colônia assistiu à primeira peça de kabuki:
Keisei awa no naruto, no palco montado na escola
primária e iluminado por lampiões à querosene.
Aplaudidos, o grupo foi convidado para sessões em outras
colônias. Em 1935, mudou-se para a colônia Naohira
Haruna, septuagenário, mas forte e animado, cantor de
joururi que, juntamente com Higuchi, Iritani e a esposa de Toyota
(o autor não cita o nome dela!) que tocava shamisen e
passaram a representar variadas peças. No ano seguinte,
foram encenadas novas peças de kabuki: Ehon taiko
ki (trata sobre a tragédia da família Mitsuhide
Akechi que assassinou o chefe Oda Nobunaga), Adati gahara
e a parte Shirakiya da peça Koi musume
koma jyohati. Na colônia, todos atores eram
amadores e, por isso, não atuavam bem, mas como as peças
eram de qualidade, sempre éramos aplaudidos pela platéia,
justifica Harumi Yamaguchi que, com o tempo, tornou-se ator.
Com
o passar dos anos, nas festas de São João, as
atrações foram alternadas, anualmente, entre sumô
e teatro. Harumi conta que o palco era insuficiente para o kabuki,
e tinham que construir mais espaço, incluindo
o hanamichi (caminho usado durante a peça)
e assentos da platéia.
Mas
nada era mais trabalhoso do que a confecção dos
figurinos e cenários, garante Yamaguchi. Outro
trabalho difícil era ensinar os jovens, não tinham
conhecimento algum. O único alívio é que
falavam o japonês e ficava mais fácil ensiná-los,
comenta. No mês que antecedia à apresentação,
conta, os ensaios aconteciam noites adentro.
Em
1937, com a mudança de Haruna, foi incorporado ao grupo
um ator de kabuki (quando morava no Japão), Toota Kurati,
que ajudou a dar qualidade às iniciativas artísticas
de São João. Em 1940, foi encenada a peça
Chushingura (a mais famosa de kabuki), Keisei
awa no naruto e Goshozakura Horikawa youti.
Em
junho de 1942, apesar das dificuldades provocadas pelo início
da Segunda Guerra, montaram o espetáculo com Hinomaru
ameya, Nomitsume santi to Ruogoku e Keyamura
Rokusuke (peça de kyogen narrativa enfocando
as fraquezas humanas de maneira cômica).
Yamaguchi
ressalta que Kurati se dedicava de corpo e alma à preparação
dos espetáculos. Durante dois meses e meio, todas
as noites, ensaiou todos os participantes, afirma, lembrando
que um dia antes da estréia, faleceu o pai de Kurati.
Cansado pelo esforço dos ensaios, mesmo assim não
demonstrou ter ficado abalado. Ao final dos funerais, voltou
ao teatro e atuou nas peças como se nada tivesse acontecido.
Era realmente um artista, colocava a arte em primeiro lugar,
reconhece.
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