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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Lembranças de um ator de kabuki
Harumi Yamaguchi conta seus tempos de palco, a partir da década de 30

Harumi Yamaguchi (à esq.), representando papel feminino (onnagata), e Keiko Tachibana na peça “Benkei Joshi”

Grupo teatral em 1940, na colônia São João, em
comemoração dos 2.600 anos do império japonês

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

Passados os primeiros tempos de grandes dificuldades, quando a vida começou a melhorar, os imigrantes japoneses encontraram tempo e meios para montar as representações teatrais de kabuki. Quem escreve é Harumi Yamaguchi, em um artigo para o livro “Coronia Gueinoshi”, de 1986.

Kabuki (ka, canto – bu, dança e ki, representação), consolidado na Era Edo (1603/1868), é representado apenas por homens, mesmo em papéis femininos (onnagata). Há estudiosos que, pelas condições amadorísticas no Brasil, as peças (ou partes delas) montadas como sendo kabuki, “não podem ser consideradas como tal”. Deixando desse lado essa discussão técnica e purista, e guardadas as devidas proporções, é importante reconhecer os esforços de aficionados em cultivar essas artes tradicionais.

Harumi lembra do ano 1931, quando ainda criança, morando na colônia São João, na região da linha Noroeste, o líder era Iritani, presidente da Associação de Japoneses local, especialista em joururi (narrativa acompanhada de shamisen, incorporada ao teatro bunraku e kabuki na Era Edo). Conta que, anualmente, na festa de São João, quando a comunidade se reunia para as competições de sumô e apresentações artísticas, Iritani era muito aplaudido por suas apresentações. E tinha como acompanhantes Teraoka Heimon e Mizutake, estes responsáveis pelos números de danças, teatro e mágica.

A primeira peça de kabuki
De acordo com ele, na festa de São João de 1932, a colônia assistiu à primeira peça de kabuki: “Keisei awa no naruto”, no palco montado na escola primária e iluminado por lampiões à querosene. Aplaudidos, o grupo foi convidado para sessões em outras colônias. Em 1935, mudou-se para a colônia Naohira Haruna, septuagenário, mas forte e animado, cantor de joururi que, juntamente com Higuchi, Iritani e a esposa de Toyota (o autor não cita o nome dela!) que tocava shamisen e passaram a representar variadas peças. No ano seguinte, foram encenadas novas peças de kabuki: “Ehon taiko ki” (trata sobre a tragédia da família Mitsuhide Akechi que assassinou o chefe Oda Nobunaga), “Adati gahara” e a parte “Shirakiya” da peça “Koi musume koma jyohati”. Na colônia, “todos atores eram amadores e, por isso, não atuavam bem, mas como as peças eram de qualidade, sempre éramos aplaudidos pela platéia”, justifica Harumi Yamaguchi que, com o tempo, tornou-se ator.

Com o passar dos anos, nas festas de São João, as atrações foram alternadas, anualmente, entre sumô e teatro. Harumi conta que o palco era insuficiente para o kabuki, e tinham que “construir” mais espaço, incluindo o “hanamichi” (caminho usado durante a peça) e assentos da platéia.

“Mas nada era mais trabalhoso do que a confecção dos figurinos e cenários”, garante Yamaguchi. “Outro trabalho difícil era ensinar os jovens, não tinham conhecimento algum. O único alívio é que falavam o japonês e ficava mais fácil ensiná-los”, comenta. No mês que antecedia à apresentação, conta, os ensaios aconteciam noites adentro.

Em 1937, com a mudança de Haruna, foi incorporado ao grupo um ator de kabuki (quando morava no Japão), Toota Kurati, que ajudou a dar qualidade às iniciativas artísticas de São João. Em 1940, foi encenada a peça “Chushingura” (a mais famosa de kabuki), “Keisei awa no naruto” e “Goshozakura Horikawa youti”.

Em junho de 1942, apesar das dificuldades provocadas pelo início da Segunda Guerra, montaram o espetáculo com “Hinomaru ameya”, “Nomitsume santi to Ruogoku” e “Keyamura Rokusuke” (peça de kyogen – narrativa enfocando as fraquezas humanas de maneira cômica).

Yamaguchi ressalta que Kurati se dedicava de corpo e alma à preparação dos espetáculos. “Durante dois meses e meio, todas as noites, ensaiou todos os participantes”, afirma, lembrando que um dia antes da estréia, faleceu o pai de Kurati. “Cansado pelo esforço dos ensaios, mesmo assim não demonstrou ter ficado abalado. Ao final dos funerais, voltou ao teatro e atuou nas peças como se nada tivesse acontecido. Era realmente um artista, colocava a arte em primeiro lugar”, reconhece.

 
NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Baseado no artigo “Kabuki shibai ni ikita gunzo” (Turma que viveu as atividades de kabuki), de autoria de Harumi Yamaguchi, publicado em “Coronia Gueinoshi”, vários autores, livro editado pela Comissão de Publicação do Coronia Guenoshi, 1986, São Paulo.
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