PORTAL NIPPO-BRASIL - 10 ANOS ONLINE
Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Velhas lembranças de um tempo do cinema
“Quando a luz se projetava, os gritos de alegria das crianças”. São as imagens que ficaram de um tempo em que o cinema percorria os povoados do interior paulista

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)


Yume miru koro (Tempo de sonhar), primeiro filme trazido pelo Nippak Cinemasha

Kimiyasu Hirata foi um dos integrantes da Nippak Cinemasha (Empresa Cinematográfica Nipo-Brasileira) fundada por Masaichi Saito, em 1929, na cidade de Bauru. “Quando a luz se projetava na tela, principalmente as crianças gritavam de alegria. Para nós, era a maior felicidade”, relembra, num texto que escreveu para o livro Coronia Gueinoshi.

Era o momento de magia capaz de fazer esquecer o esforço para transportar quase uma tonelada de equipamentos cinematográficos e geradores de energia pelas estradas de terra esburacadas, empoeiradas (ou enlameadas!). Havia também sacrifício do público: tinha gente que andava mais de 10 quilômetros para assistir ao filme. Admite: “Não dava para cobrar caro o ingresso. Na verdade, ficávamos satisfeitos só de sentir a felicidade das pessoas”.

A estréia do Nippak Cinemasha em São Paulo foi em 1933, mas, no ano anterior, no auditório da Escola Taisho Shogakko (onde está o prédio da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, na Liberdade) foi organizada “A Noite do Cinema Japonês”. Foram dois filmes: Rojo no Rakuen (Paraíso da rua) e Nekketsu no Akushu (Caloroso aperto de mãos).

“Eram filmes já usados, comprados do Japão, e depois de cada exibição o nosso maior trabalho era emendar os cortes”, afirma.

Além do bairro da Liberdade, as turnês incluíam exibições em Pinheiros, Cooperativa Agrícola de Cotia, Cooperativa de Mogi das Cruzes, Cocuera; ainda nas escolas japonesas de Cotia, Jaguaré e Vargem Grande, ou então nas chácaras alugadas (de proprietários não-nikkeis) nos bairros Morumbi e Broklin.

Após a Guerra, a Toho, Shochiku, Nikkatsu e Toei abriram distribuidoras no país e os filmes eram exibidos em São Paulo e depois seguiam para o interior. Mas, nos anos 30 e 40, compravam-se filmes usados que, depois da temporada nas regiões da Noroeste, Mogiana e Paulista chegavam na cidade de São Paulo.

Entre os filmes trazidos pela Nippak Cinemasha, alguns têm títulos interessantes: Bakudan San-yushi (Três heróis da bomba), Hitobashira Yon-yushi (Quatro heróis bodes expiatórios), Manchu Koshinkyoku (Marcha da Manchúria), Jokyu (A garçonete) e Café no Onna (A garçonete da cafeteria).

No entanto, a trajetória do cinema foi interrompida em 1941, com a Segunda Guerra. Hirata lembra que o último filme foi Gokoku no haha (Mãe que protege o país), que se passa durante a guerra russo-japonesa (1904–1905), exaltando o espírito patriótico. “Foi um sucesso de bilheteria, muita gente ficou de fora”, descreve.

Hirata afirma que, com a guerra, não só foram proibidas as exibições, como também todos os filmes e os equipamentos foram confiscados pelo governo. “Isso foi muito lamentável para todos nós”.

 
NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Texto de Kimiyasu Hirata, publicado no livro Coronia Gueinoshi, vários autores, editado pela Comissão de Publicação do Coronia Guenoshi, 1986, São Paulo.
História da Imigração
O extremo sul do Brasil na história da imigração japonesa
"Senhor(a) Emigrante"
Casamentos interétnicos
A vida no Centro de Emigrantes de Kobe
Movimento para a construção do Centro de Emigrantes
Indústria à nipo-brasileira:
a economia nikkei (parte II)
Indústria à nipo-brasileira:
a economia nikkei (parte I)
Véspera da partida do navio Kasato Maru
A religião e os nikkeis no pós-guerra
Navegação cheia de confusões
Cooperativa Agrícola Central Sul-Brasil, referência nacional de cooperativismo
Kasato Maru: o primeiro navio de emigrantes ao Brasil
O Prédio da Emigração em Kobe e a Hospedaria de Emigrantes
Contexto brasileiro - Nisseis (parte II) ascensão
Contexto brasileiro - Nisseis (parte I)
A elegia da Colina de Emigrantes
Mapeando a Imigração
Os três grandes cenários do porto de Kobe
Música, a mais pura fragrância da terra natal
Disposição para se relacionar com outros mundos
Miyagi-kai, ouvidos para os sons do Ocidente
“Senso artístico que dá lustro à vida”
Grupo Miwa: música, modernidade e solidariedade
A alma mais tropical e o bolso mais pobre do Japão
Música para koto: histórias do dragão confabulando
Nishikigoi: encantamento, técnica e ação política
O poder dos festivais de música folclórica japonesa
Música Folclórica Japonesa, os variados caminhos de atuação
Min’you - tradição musical japonesa
Cine Niterói, a referência do bairro da Liberdade
Balada de Narayama, filme de estréia da Shochiku no Brasil
Cinema Japonês: chegam as grandes distribuidoras
“Vida de artista”, o cinema japonês no Brasil
Nippaku Cinemasha (2) - Velhas lembranças de um tempo do cinema
Nippaku Cinemasha (1) - A pioneira do cinema ambulante
Os primeiros filmes japoneses no Brasil
Ichiro Wakiyama: música para acalmar os sofrimentos
Ichiro Wakiyama o talento a serviço da música
Música entre os imigrantes: o talento de Ichiro Wakiyama
Daimao, dedicação à arte da magia
Lembranças do kabuki: os tempos
Lembranças de um ator de kabuki
Cinema-teatro: o sucesso de uma novidade
Memórias de um ator do teatro nipo-brasileiro
Arquivo - História da Imigração
Veja todas as matérias publicadas
 Link direto com a redação (sugestões, dúvidas ou reclamações): Clique aqui
  © Copyright 1992-2010 - Jornal NippoBrasil - Todos os direitos reservados - www.nippo.com.br - www.zashi.com.br