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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Cine Niterói
A construção do cinema mudou o cenário da região do Bairro da Liberdade e transformou-se na referência para a constituição de um bairro típico japonês

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)


Cine Niterói nos tempos da Galvão Bueno

Nos primeiros anos da década de 50, a Rua Galvão Bueno era meio escura, com árvores em ambas as calçadas e comércio incipiente, com alguns bares e mercearias. Essa é a lembrança de Fujio Yahagui, ex-superintendente do Cine Niterói, no livro Coronia Gueinoshi, ao contar o surgimento do edifício de cinco andares, de cor branca, no último quarteirão antes da Praça da Liberdade, onde funcionava a gráfica do Diário Oficial. Ali, no térreo, em 1953, foi inaugurado do Cine Niterói.

“Foi uma construção que mudou o cenário da região e transformou-se na referência para a constituição de um bairro típico japonês. Além do cine, havia hotel, restaurante e auditório. Tanto que era chamado de Castelo Niterói”, conta Yahagui, ressaltando que Yoshikazu Tanaka, o seu proprietário, trabalhou dia e noite para concretizar esse empreendimento. “Ele acompanhou, pessoalmente, as instalações das 1,5 mil poltronas, do carpete vermelho, do projetor, da tela, das caixas acústicas e da iluminação”, atesta.


1 - Fila de espera para assistir a uma sessão no Niterói; 2 - Ator Ishihara Yujiro, famoso pelos papéis de pistoleiro

Estréia

Fato é que, no início dos anos 50, a concorrência era acirrada: o auditório “Nambei Guekijo” já se transformara no Cine Tokyo e Tanaka tinha pressa. Finalmente, em 23 de julho de 1953, foi inaugurado com a exibição do filme Guenji Monogatari (Amores de Guenji), da Daiei, de 1951, dirigido por Kosaburo Yoshimura, prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Cannes de 1952.

Em pouco tempo, assistir ao filme no Niterói virou programa preferido dos nipo-brasileiros. Se por um lado as filas de público atestavam o sucesso do empreendimento, por outro, não eram poucas as dificuldades. “No tempo da inauguração, tínhamos somente quatro filmes e Tanaka teve de viajar ao Japão para comprar novos filmes em várias companhias. Não era fácil acertar o gosto do público, no entanto, essa era a sensação do nosso negócio”, revela Yahagui. Em 1961, o Niterói fechou exclusividade de distribuição com a Daiei.

Trajetória


A atriz Takara Tomoko, com Tanaka e Masao Oshida

De acordo com Yahagui, Yoshikazu Tanaka chegou ao Brasil em 1926, aos 21 anos, e foi para a região da Mogiana e, depois, para o norte do Paraná. Bom negociante, em 1938, deixou a lavoura para se dedicar ao comércio de produtos agrícolas. O período da Segunda Guerra foi próspero para Tanaka – em 1943, ele mudou a matriz de seus negócios para São Paulo e abriu filial no Paraná (Uraí). Com os lucros com a venda de feijão, conseguiu capital para abrir o Cine Niterói, aos 48 anos.

Keijiro Jojima, em texto comemorativo aos 30 anos de fundação do Cine Niterói, em 1983, destaca a inteligência e o bom humor de Tanaka (falecido em 1980), e confessa: “Na entrada, era costume encontrar reproduções de diferentes artistas em tamanho natural. Por exemplo, de Ishihara Yujiro pistoleiro ou de Tsuruta Koji yakuza”, afirma. E lamenta: “O próprio Niterói, que muito contribuiu na urbanização da Liberdade, acabou se tornando vítima dela” (em 1968, com a construção da via expressa Leste-Oeste, o cinema foi demolido e passou para a Avenida Liberdade).

Na Avenida Liberdade (esquina com a Rua Barão Iguape), na década de 70, o Niterói ainda teve de amargar, em sua porta, as obras de construção do Metrô. Depois, seguiram-se outros problemas (crise da indústria cinematográfica japonesa, concorrência da televisão e do vídeo cassete, etc.) que levaram ao seu fechamento em 1988.

 
NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Texto de Fujio Yahagui e Keijiro Jojima publicados no livro Coronia Gueinoshi, vários autores, editado pela Comissão de Publicação do Coronia Guenoshi, 1986, São Paulo.
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