|
(Fotos:
Museu Histórico da Imigração Japonesa)

A
música para koto como referência de estudo da etnicidade,
ideologia e herança cultural. Essa foi a tese de doutorado
em Música elaborada por Alice Lumi Satomi junto à
Universidade Federal da Bahia, que resultou em estudos importantes
sobre a trajetória dos imigrantes japoneses no Brasil.
O título, à primeira vista, é inusitado:
Dragão confabulando: etnicidade, ideologia e herança
cultural através da música para koto no Brasil.
A autora, Alice Lumi Satomi, encarrega-se de desvendar o assunto
a partir do capítulo inicial, sob o título Dragão
deitado na areia confabula com as ondas.
Koto,
ela explica, pertence ao grupo dos cordofones e à família
das cítaras longas, tocadas com plectros, sendo que o
tipo mais usual possui 13 cordas de náilon (originalmente
eram de seda). Tem o formato de uma prancha retangular oca feita
de madeira kiri, com cerca de 1,80 m de comprimento, 25 cm de
largura e 8 cm de altura. O tampo superior é levemente
convexo ao fundo chato da caixa de ressonância. O instrumento
fica suspenso por pés fixos para que o som se projete
através de suas duas rosáceas, localizadas na
parte inferior.
Aspectos
diferentes
O
detalhe importante é a sua forma simbólica: o
tampo superior representa o céu; e o fundo chato, a terra.
As cordas, as relações humanas; uma das cavidades
sonoras é chamada de poço do dragão; e
a outra, tanque da fênix, numa referência aos princípios
yang e yin. Num único instrumento, podemos conferir
a síntese dos fundamentos budistas, taoístas e
confucionistas, sustenta a pesquisadora.
A
tese de doutorado de Alice Lumi Satomi, apresentada para o Programa
de pós-graduação em Música, em 2004,
especificamente em etnomusicologia, detalha diferentes aspectos
relacionados ao koto. De um lado, como instrumento musical,
seus recursos sonoros, análise de repertório,
as escolas e compositores japoneses. De outro, as circunstâncias
históricas e socioculturais dos grupos musicais nipo-brasileiros,
enfocando os praticantes da Associação Okinawa
Kenjin do Brasil, o grupo Miwa-kai e a Associação
Brasileira de Música Clássica Japonesa.
A
pesquisa de campo foi iniciada em 1996 (a própria autora
participou ativamente das aulas) e resultou na divisão
das três associações em dois grupos. As
duas filiais das sôkyoku (música para koto) de
Ryûkyû da Associação Okinawa e o Miwa-kai
(estilo Ikuta-ryu) têm em comum um comportamento de atitudes
coletivistas peculiares ao imigrante pré-guerra
e, portanto, foram agrupadas no capítulo Surgimento
e Continuidade de Atitudes Pré-Guerra.
Já
a Associação Brasileira de Música Clássica
Japonesa foi enfocada sob o título Implantação
da Mentalidade Pós-Guerra, envolvendo uma ex-professora
do estilo Yamada-ryu e os grupos Miyagi-kai e Seiha do Brasil
de Koto (ramificações do estilo Ikuta-ryu). De
acordo com a pesquisadora, no interior desses grupos convivem
a conduta rural pré-guerra e a mentalidade urbana moderna
ou ocidentalizada do pós-guerra.
Alice
evita o termo transplante da sokyoku (música
para koto) ao Brasil, e prefere utilizar o conceito de alternativização,
ou seja, um processo em que um repertório oficial
no país natal passa a ser alternativa no
país adotivo. Enfim, qual o sentido sociocultural de
tocar koto no Brasil? Esse foi o desafio de Alice que, nas próximas
edições, comentaremos algumas de suas descobertas.
|