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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Música para koto: histórias do dragão confabulando
Assunto é o mote de tese desenvolvida na Bahia,
resultando em estudos importantes sobre a trajetória dos imigrantes no Brasil

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

A música para koto como referência de estudo da etnicidade, ideologia e herança cultural. Essa foi a tese de doutorado em Música elaborada por Alice Lumi Satomi junto à Universidade Federal da Bahia, que resultou em estudos importantes sobre a trajetória dos imigrantes japoneses no Brasil. O título, à primeira vista, é inusitado: “Dragão confabulando: etnicidade, ideologia e herança cultural através da música para koto no Brasil”. A autora, Alice Lumi Satomi, encarrega-se de desvendar o assunto a partir do capítulo inicial, sob o título “Dragão deitado na areia confabula com as ondas”.

Koto, ela explica, pertence ao grupo dos cordofones e à família das cítaras longas, tocadas com plectros, sendo que o tipo mais usual possui 13 cordas de náilon (originalmente eram de seda). Tem o formato de uma prancha retangular oca feita de madeira kiri, com cerca de 1,80 m de comprimento, 25 cm de largura e 8 cm de altura. O tampo superior é levemente convexo ao fundo chato da caixa de ressonância. O instrumento fica suspenso por pés fixos para que o som se projete através de suas duas rosáceas, localizadas na parte inferior.

Aspectos diferentes

O detalhe importante é a sua forma simbólica: o tampo superior representa o céu; e o fundo chato, a terra. As cordas, as relações humanas; uma das cavidades sonoras é chamada de poço do dragão; e a outra, tanque da fênix, numa referência aos princípios yang e yin. “Num único instrumento, podemos conferir a síntese dos fundamentos budistas, taoístas e confucionistas”, sustenta a pesquisadora.

A tese de doutorado de Alice Lumi Satomi, apresentada para o Programa de pós-graduação em Música, em 2004, especificamente em etnomusicologia, detalha diferentes aspectos relacionados ao koto. De um lado, como instrumento musical, seus recursos sonoros, análise de repertório, as escolas e compositores japoneses. De outro, as circunstâncias históricas e socioculturais dos grupos musicais nipo-brasileiros, enfocando os praticantes da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, o grupo Miwa-kai e a Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa.

A pesquisa de campo foi iniciada em 1996 (a própria autora participou ativamente das aulas) e resultou na divisão das três associações em dois grupos. As duas filiais das sôkyoku (música para koto) de Ryûkyû da Associação Okinawa e o Miwa-kai (estilo Ikuta-ryu) têm em comum um comportamento de “atitudes coletivistas peculiares ao imigrante pré-guerra” e, portanto, foram agrupadas no capítulo “Surgimento e Continuidade de Atitudes Pré-Guerra”.

Já a Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa foi enfocada sob o título “Implantação da Mentalidade Pós-Guerra”, envolvendo uma ex-professora do estilo Yamada-ryu e os grupos Miyagi-kai e Seiha do Brasil de Koto (ramificações do estilo Ikuta-ryu). De acordo com a pesquisadora, “no interior desses grupos convivem a conduta rural pré-guerra e a mentalidade urbana ‘moderna’ ou ‘ocidentalizada’ do pós-guerra”.

Alice evita o termo “transplante” da sokyoku (música para koto) ao Brasil, e prefere utilizar o conceito de “alternativização”, ou seja, um processo em que um repertório “oficial” no país natal passa a ser “alternativa” no país adotivo. Enfim, qual o sentido sociocultural de tocar koto no Brasil? Esse foi o desafio de Alice que, nas próximas edições, comentaremos algumas de suas descobertas.

 
NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Nishikigoi no Brasil (texto e fotos), editado pela Associação Brasileira de Nishikigoi, em comemoração do 20º aniversário de fundação em 2000.
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