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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
A alma mais tropical e o bolso mais pobre do Japão
Alice Lumi Satomi, em seu doutorado sobre a trajetória do koto na comunidade de imigrantes japoneses, percorre o mundo musical das filiais brasileiras da minoria okinawana

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

Somos o pessoal da música mais cadenciada, da pele mais escura, dos olhos mais redondos, da alma mais tropical e do bolso mais pobre do Japão”. Este é o depoimento de Beth Shimabukuro registrado na tese de doutorado de Alice Lumi Satomi, Dragão confabulando: etnicidade, ideologia e herança cultural através da música para koto no Brasil, de 2004, apresentado na Universidade Federal da Bahia (Programa de Pós-Graduação em Música).

Cada peculiaridade, diz, reforça o grau de etnicidade ocasionado pelo passado de dominação e discriminações, destacando que Ryûkyû (antiga denominação de Okinawa), foi dominado economicamente pela China e, politicamente, pelos Estados Unidos e Japão.

Música em nível nacional

A música desempenha um papel decisivo para “imprimir o padrão e a identidade cultural” que, numa megalópole como São Paulo, percebe-se um “acentuado grau coesivo” pela existência de 16 subsedes da Associação de Okinawa Kenjin do Brasil instalados nos bairros. Papel esse também exercido em nível nacional (estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná e Distrito Federal).

Alice informa que as manifestações culturais, em festejos de grande porte, são baseadas em oito grupos de música: dois de taikô (tambor) reunindo crianças e jovens, duas filiais de minyo (música folclórica), envolvendo todas as faixas etárias, e quatro filiais de koten (música clássica antiga), a maioria com praticantes das terceira idade.

Esse último item envolve músicas tocadas por sanshin (denominação local do shamisen) pelos homens e kûtû (nome okinawano para koto) pelas mulheres, organizados institucionais em duas escolas principais.

No período pré-guerra, a prática da música clássica de Ryûkyû era informal devido às dificuldades da vida rural e a intensa mobilidade territorial. Isso mudou na década de 40, tendo como referência Binsuke Shinzato, fundador da escola Preservação Nomura do Brasil e o primeiro imigrante pré-guerra a conquistar o título de kyôshi (professor) em 1956.

A institucionalização das atividades musicais, continua Alice, resultou não só da vinda de imigrantes pós-guerra (a partir dos anos 50), como do envio de especialistas como Seihin Yamanouchi e Kanai Kikuko.

Atualidade

Em 2002, indica Alice, a escola Preservação Nomura do Brasil reunia 81 associados, sendo que 43 eram executantes de sanshin e 38 associadas da ala de kûtû. Desse total, 13 eram nisseis e 2 sanseis. O restante (79%) eram provenientes de Naha, Yomitan, Nishihara, Okinawa e Nago, cuja idade média é de 70 anos.

A escola Preservação de Kûtû do Brasil (um departamento da Preservação Nomura do Brasil) foi oficializada pela matriz (Ryûkyû Sôkyoku Hôzonkai) em 1970, quatro anos após a chegada da shihan (mestre) Toyo Oshiro. Ela liderou um grupo de seis graduadas (sendo duas mestres: Harue Yamada e Chibana Chieko). Grande parte dos alunos está localizada na região da Vila Carrão, Santa Clara e São Mateus, na zona leste da capital paulista.

Já a outra entidade, a Associação Nomura do Brasil, em 2002, reunia 154 associados, sendo 85 executantes de sanshin e 69 de kûtû. Desse total, 18 eram nisseis e 2 sanseis. O restante (78%) era imigrantes das regiões de Nakijin, Nagô, Gushikawa, Itoman e Okinawa. A concentração de alunos está nos bairros paulistas Casa Verde e Vila Alpina, em São Caetano, Campinas e Santo André.

Desse grupo, na ala de kûtû, Alice destaca a atuação de Ryoko Kuniyoshi, imigrante de Yomitani, que emigrou em 1967. Na zona da Grande São Paulo, destaque para as primeiras shihan (mestre), Take Takara e Kayoko Shimabukuro.

As escolas, além do treinamento semanal regional, também programam grupos de estudos entre graduadas na sede da Associação Okinawa Kenjin do Brasil. E é esse o local das festividades conjuntas de escolas e de talentos musicais. Ou na outra sede, em Diadema, no Festival Folclórico, cuja atração principal é a escolha da Miss Ryûso.

A fundação das escolas de música clássicas, sustenta Alice, é fruto da coesão dos okinawanos pré-guerra com a dos imigrantes pós-guerra, ressaltando o papel da música que, para a professora Chibana: “Além de amenizar o coração, o significado principal da música é a união entre as associações”.

 
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