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(Fotos:
Museu Histórico da Imigração Japonesa)

Somos
o pessoal da música mais cadenciada, da pele mais escura,
dos olhos mais redondos, da alma mais tropical e do bolso mais
pobre do Japão. Este é o depoimento de Beth
Shimabukuro registrado na tese de doutorado de Alice Lumi Satomi,
Dragão confabulando: etnicidade, ideologia e herança
cultural através da música para koto no Brasil,
de 2004, apresentado na Universidade Federal da Bahia (Programa
de Pós-Graduação em Música).
Cada
peculiaridade, diz, reforça o grau de etnicidade ocasionado
pelo passado de dominação e discriminações,
destacando que Ryûkyû (antiga denominação
de Okinawa), foi dominado economicamente pela China e, politicamente,
pelos Estados Unidos e Japão.
Música
em nível nacional
A música desempenha um papel decisivo para imprimir
o padrão e a identidade cultural que, numa megalópole
como São Paulo, percebe-se um acentuado grau coesivo
pela existência de 16 subsedes da Associação
de Okinawa Kenjin do Brasil instalados nos bairros. Papel esse
também exercido em nível nacional (estados de
São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná e Distrito
Federal).
Alice
informa que as manifestações culturais, em festejos
de grande porte, são baseadas em oito grupos de música:
dois de taikô (tambor) reunindo crianças e jovens,
duas filiais de minyo (música folclórica), envolvendo
todas as faixas etárias, e quatro filiais de koten (música
clássica antiga), a maioria com praticantes das terceira
idade.
Esse
último item envolve músicas tocadas por sanshin
(denominação local do shamisen) pelos homens e
kûtû (nome okinawano para koto) pelas mulheres,
organizados institucionais em duas escolas principais.
No
período pré-guerra, a prática da música
clássica de Ryûkyû era informal devido às
dificuldades da vida rural e a intensa mobilidade territorial.
Isso mudou na década de 40, tendo como referência
Binsuke Shinzato, fundador da escola Preservação
Nomura do Brasil e o primeiro imigrante pré-guerra a
conquistar o título de kyôshi (professor) em 1956.
A
institucionalização das atividades musicais, continua
Alice, resultou não só da vinda de imigrantes
pós-guerra (a partir dos anos 50), como do envio de especialistas
como Seihin Yamanouchi e Kanai Kikuko.
Atualidade

Em
2002, indica Alice, a escola Preservação Nomura
do Brasil reunia 81 associados, sendo que 43 eram executantes
de sanshin e 38 associadas da ala de kûtû. Desse
total, 13 eram nisseis e 2 sanseis. O restante (79%) eram provenientes
de Naha, Yomitan, Nishihara, Okinawa e Nago, cuja idade média
é de 70 anos.
A
escola Preservação de Kûtû do Brasil
(um departamento da Preservação Nomura do Brasil)
foi oficializada pela matriz (Ryûkyû Sôkyoku
Hôzonkai) em 1970, quatro anos após a chegada da
shihan (mestre) Toyo Oshiro. Ela liderou um grupo de seis graduadas
(sendo duas mestres: Harue Yamada e Chibana Chieko). Grande
parte dos alunos está localizada na região da
Vila Carrão, Santa Clara e São Mateus, na zona
leste da capital paulista.
Já
a outra entidade, a Associação Nomura do Brasil,
em 2002, reunia 154 associados, sendo 85 executantes de sanshin
e 69 de kûtû. Desse total, 18 eram nisseis e 2 sanseis.
O restante (78%) era imigrantes das regiões de Nakijin,
Nagô, Gushikawa, Itoman e Okinawa. A concentração
de alunos está nos bairros paulistas Casa Verde e Vila
Alpina, em São Caetano, Campinas e Santo André.
Desse
grupo, na ala de kûtû, Alice destaca a atuação
de Ryoko Kuniyoshi, imigrante de Yomitani, que emigrou em 1967.
Na zona da Grande São Paulo, destaque para as primeiras
shihan (mestre), Take Takara e Kayoko Shimabukuro.
As
escolas, além do treinamento semanal regional, também
programam grupos de estudos entre graduadas na sede da Associação
Okinawa Kenjin do Brasil. E é esse o local das festividades
conjuntas de escolas e de talentos musicais. Ou na outra sede,
em Diadema, no Festival Folclórico, cuja atração
principal é a escolha da Miss Ryûso.
A
fundação das escolas de música clássicas,
sustenta Alice, é fruto da coesão dos okinawanos
pré-guerra com a dos imigrantes pós-guerra, ressaltando
o papel da música que, para a professora Chibana: Além
de amenizar o coração, o significado principal
da música é a união entre as associações.
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