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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
“Senso artístico que dá lustro à vida”
Após a Segunda Guerra, entre os imigrantes japoneses, muitos tinham formação musical e
exerceram importante papel na recuperação do “senso estético” que os imigrantes japoneses perderam na difícil luta pela sobrevivência

(Fotos: Yuko Ogura/Arquivo Pessoali)


Grão-mestre Tsuna Iwami ao centro, em apresentação com as professoras Kitahara (esq.) e Ogura

O artista plástico e autor de várias obras sobre imigração japonesa Tomoo Handa, ao escrever sobre a difícil vida dos imigrantes pré-guerra, lamentava a perda do “senso artístico que dá lustro à vida”.

Alice Yumi Satomi, ao desenvolver a tese de doutorado Dragão Confabulando: Etnicidade, Ideologia e Herança Cultural através da música para Koto no Brasil, apresentada na Universidade Federal da Bahia em 2004, defende o fato de que a retomada do fluxo de imigrantes pós-guerra também significou a “retomada” desse “senso artístico” (perdido ou abandonado) na comunidade nipo-brasileira.

Essa afirmativa tem como uma das referências a chegada, em 1956, da família Iwami – Tomii Iwami (professora e performer de koto do estilo Yamada-ryu) e de seu filho, Tsuna Iwami (grão-mestre Baikyoku V).

Tsuna Iwami, nascido em 1923, iniciou estudos de shakuhachi (flauta vertical de bambu com quatro orifícios anteriores e um posterior) aos 7 anos de idade e, aos 19 anos, conquistou o pseudônimo artístico de Baikyoku V, herdando a tradição de iemoto (literalmente, principal da casa), representando a quinta geração da corrente Kinko-ryu.

A trajetória de Iwami


Grupo de música clássica japonesa em apresentação: performances são escassas;
mesmo assim, a agenda de eventos têm atividades constantes

O sistema de iemoto, adotado pela maioria dos gêneros de música e dança artística, está organizado em “escolas” ou “linhagens” hierarquicamente estruturadas com o iemoto na liderança, que toma decisões sobre estilo de performance, licença de professores, etc.

Além do shakuhachi, Tsuna Iwami também estudou okuralo (flauta vertical de metal com embocadura de shakuhachi), composição ocidental, e, na década de 40, compôs várias obras. Formou-se geofísico e químico pela Universidade de Kyoto e, em 1956, chegou ao Brasil para abrir sua própria indústria.

Desde a chegada ao Brasil, tem se apresentado com intérprete de shakuhachi, inicialmente com a mãe, Tomii Iwami, e, com o falecimento desta, com Tomoi Inoki, Yuko Ogura, Gakkyo Yumoto e Utahito Kitahara. Também organizou vários recitais em importantes palcos de música erudita, como o Teatro Municipal de São Paulo.

Viaja constantemente ao Japão para os encontros da Kinko-ryu (quando acontecem as cerimônias de outorga de certificados) e para apresentações em diferentes locais, como ocorreu em 1970, quando gravou na NHK um especial sobre a história da música para shakuhachi. No Brasil, também gravou programas na TV Cultura.

Nesses 50 anos de Brasil, Tsuna Iwami já habilitou vários alunos. E a pesquisadora Alice Satomi chama atenção para um fato curioso: entre os oito alunos que participam das apresentações, apenas três são nikkeis: Baiô Natori (já falecido) e os nisseis Júlio Kobayashi e Máximo Hamada. Predominam os não nikkeis: Carlos Raigorodsky (engenheiro civil), Antônio Mauro Rodrigues Roque (músico profissional), Dale Olsen (norte-americano, doutor em músicas japonesas e latino-americanas), Danilo Tomic (músico, recebeu o pseudônimo de Baikyo, em 2001), José Vicente Ribeiro (flautista, aluno de Antonio Carrasqueira). “Eles conhecem e valorizam a música artística japonesa mais que os próprios descendentes”, ressalta o grão-mestre Iwami.

Do período pós-guerra, destaque para a fundação da Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa, em 1989, por líderes da maioria das escolas de shakuhachi e koto da cidade de São Paulo. A presidência vem sendo exercida por Baikyoku Iwami (Tsuna Iwami) pelo alto grau de grão-mestre.

As apresentações dessa entidade são escassas, tendo como tradição a participação anual no Festival de Música e Dança Japonesa (Gueinosai), no Bunkyo, desde 1966, em comemoração ao aniversário da imigração japonesa no Brasil. Trata-se da vitrine dos grupos musicais e de dança tradicional, popular e clássica de comunidade nikkei, segundo ressalta Alice Satomi.

A principal performance da Associação, desde a fundação, tem sido a promoção, a cada dois ou três anos, de concerto em prol da Sociedade Beneficente Casa da Esperança (Kibo-no-Ie).

Apesar das poucas apresentações conjuntas da entidade, os grupos que fazem parte dela, principalmente os de koto, têm atividades constantes. E, nesse caso, a Associação funciona como órgão centralizador dos convites que chegam de diversos locais.

 
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