|
(Fotos:
Yuko Ogura/Arquivo Pessoali)

Grão-mestre
Tsuna Iwami ao centro, em apresentação com as
professoras Kitahara (esq.) e Ogura
Após
três séculos de isolamento e a abertura promovida
pela Era Meiji (18681912), instalou-se a moda da ocidentalização.
Com a música, não foi diferente e, com as escolas
de koto, havia mais um agravante.
Nessa
época, a dissolução do sistema tôdô
shoku-yashiki ameaçava o futuro dos profissionais
cegos das escolas de koto. Esse sistema corporativo possibilitava
o treinamento de profissionais para deficientes visuais em habilidades
tais como música, teatro, acupuntura e massagem.
O
fato era que o koto, por seu timbre próximo ao da harpa
e suas possibilidades de afinação e extensão,
tornou-se o instrumento favorito para essas experimentais. Quem
escreve é Alice Lumi Satomi, em sua tese Dragão
confabulando: etnicidade, ideologia e herança cultural
através da música para koto no Brasil, de 2004,
apresentada na Universidade Federal da Bahia (Programa de Pós-Graduação
em Música).
Ela
destaca, no entanto, que essas ocidentalizações
foram cautelosas e também contribuíram para diminuir
o sectarismo e o regionalismo entre as escolas de koto.
Nesse
cenário, Alice destaca a atuação de Michio
Miyagi, nascido em 1894, em Kobe. Deficiente visual desde criança,
ele tentou ampliar o repertório de koto para um sabor
internacional, não somente introduzindo elementos ocidentais
em suas composições, como também modernizando
o instrumento, conforme escreve a autora.
Miyagi
inventou o koto grave (jû-shichigen), de 17 cordas, o
koto agudo (tanô), e passou a utilizar escalas e formas
européias em suas composições.
Alice
ressalta que Miyagi, como líder do movimento música
japonesa nova (shin nihon ongaku), é considerado
pai da música moderna e benfeitor da música tradicional
japonesa em termos de conseguir modernizar sem perder
a essência verdadeira do espírito japonês.
Miyagi-kai
no Brasil
Alice, em sua tese, ao abordar sobre a Associação
Brasileira de Música Clássica Japonesa, aponta
a presença de duas ramificações modernas
das escolas de koto da corrente Ikuta, sendo uma delas o Miyagi-kai.
Este
grupo tem como referência Yuko Ogura (nascida Hayashida,
em 1930, em Pompéia), a primeira nissei brasileira habilitada
em sôkyoku (música de koto) no Japão. Durante
três anos, ela foi aluna do compositor Michio Miyagi (falecido
em 1956).
Yuko,
que desde criança aprendeu a tocar vários instrumentos
musicais, iniciou os estudos de koto aos 15 anos de idade, com
a mãe, Kikue Hayashida.
Regressando
ao Brasil, Yuko, que já ajudava a mãe nas aulas,
até 1966 passou a lecionar na própria residência
da família, no bairro de Pinheiros, chegando a conferir
muitos certificados de nível básico aos alunos.
Nessa
época, fez parte de um conjunto conhecido como Sankyoku
Wakabakai (Grupo Folhas Viçosas), reunindo instrumentistas
de diferentes escolas de música clássica japonesa.
Em
1966, casou-se com Manabu Ogura e só retornou às
aulas em 1975, tendo crianças e adolescentes como alunos,
incluindo suas três filhas.
Em
1982, o grupo Miyagi-kai foi formalizado, graças ao incentivo
das professoras Masae Tani (que morou temporariamente no Brasil
acompanhando o marido, um executivo de empresa japonesa) e Reiko
Nagase. Esta, aluna de Tani, chegou ao Brasil em 1969, após
casar-se com Francisco Takashi Nagase.
De
acordo com o levantamento de Alice, desde 1980, o Miyagi-kai
promoveu 20 apresentações, que contaram com a
presença de 90 alunos orientados pela professora Yuko
Ogura.
Até
a década de 90, suas alunas eram predominantemente issei,
acima de 50 anos e sansei abaixo de 20. Atualmente, há
um equilíbrio: metade na faixa etária entre 27
e 55 anos e outra acima de 55 anos.
|