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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Miyagi-kai, ouvidos para os sons do Ocidente
Escolas de koto também sofreram o processo de ocidentalização,
com a diminuição do sectarismo e do regionalismo entre si

(Fotos: Yuko Ogura/Arquivo Pessoali)


Grão-mestre Tsuna Iwami ao centro, em apresentação com as professoras Kitahara (esq.) e Ogura

Após três séculos de isolamento e a abertura promovida pela Era Meiji (1868–1912), instalou-se a moda da “ocidentalização”. Com a música, não foi diferente e, com as escolas de koto, havia mais um agravante.

Nessa época, a dissolução do sistema “tôdô shoku-yashiki” ameaçava o futuro dos profissionais cegos das escolas de koto. Esse sistema corporativo possibilitava o treinamento de profissionais para deficientes visuais em habilidades tais como música, teatro, acupuntura e massagem.

O fato era que o koto, por seu timbre próximo ao da harpa e suas possibilidades de afinação e extensão, tornou-se o instrumento favorito para essas experimentais. Quem escreve é Alice Lumi Satomi, em sua tese Dragão confabulando: etnicidade, ideologia e herança cultural através da música para koto no Brasil, de 2004, apresentada na Universidade Federal da Bahia (Programa de Pós-Graduação em Música).

Ela destaca, no entanto, que essas “ocidentalizações” foram cautelosas e também contribuíram para diminuir o sectarismo e o regionalismo entre as escolas de koto.

Nesse cenário, Alice destaca a atuação de Michio Miyagi, nascido em 1894, em Kobe. Deficiente visual desde criança, ele tentou ampliar o repertório de koto para um sabor internacional, não somente introduzindo elementos ocidentais em suas composições, como também modernizando o instrumento, conforme escreve a autora.

Miyagi inventou o koto grave (jû-shichigen), de 17 cordas, o koto agudo (tanô), e passou a utilizar escalas e formas européias em suas composições.

Alice ressalta que Miyagi, como líder do movimento “música japonesa nova” (shin nihon ongaku), é considerado pai da música moderna e benfeitor da música tradicional japonesa em termos de conseguir modernizar “sem perder a essência verdadeira do espírito japonês”.

Miyagi-kai no Brasil

Alice, em sua tese, ao abordar sobre a Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa, aponta a presença de duas ramificações modernas das escolas de koto da corrente Ikuta, sendo uma delas o Miyagi-kai.

Este grupo tem como referência Yuko Ogura (nascida Hayashida, em 1930, em Pompéia), a primeira nissei brasileira habilitada em sôkyoku (música de koto) no Japão. Durante três anos, ela foi aluna do compositor Michio Miyagi (falecido em 1956).

Yuko, que desde criança aprendeu a tocar vários instrumentos musicais, iniciou os estudos de koto aos 15 anos de idade, com a mãe, Kikue Hayashida.

Regressando ao Brasil, Yuko, que já ajudava a mãe nas aulas, até 1966 passou a lecionar na própria residência da família, no bairro de Pinheiros, chegando a conferir muitos certificados de nível básico aos alunos.

Nessa época, fez parte de um conjunto conhecido como “Sankyoku Wakabakai” (Grupo Folhas Viçosas), reunindo instrumentistas de diferentes escolas de música clássica japonesa.

Em 1966, casou-se com Manabu Ogura e só retornou às aulas em 1975, tendo crianças e adolescentes como alunos, incluindo suas três filhas.

Em 1982, o grupo Miyagi-kai foi formalizado, graças ao incentivo das professoras Masae Tani (que morou temporariamente no Brasil acompanhando o marido, um executivo de empresa japonesa) e Reiko Nagase. Esta, aluna de Tani, chegou ao Brasil em 1969, após casar-se com Francisco Takashi Nagase.

De acordo com o levantamento de Alice, desde 1980, o Miyagi-kai promoveu 20 apresentações, que contaram com a presença de 90 alunos orientados pela professora Yuko Ogura.

Até a década de 90, suas alunas eram predominantemente issei, acima de 50 anos e sansei abaixo de 20. Atualmente, há um equilíbrio: metade na faixa etária entre 27 e 55 anos e outra acima de 55 anos.

 
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