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Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Contexto brasileiro - Nisseis (parte I)
Divergências entre gerações sempre foram tema recorrente na história da imigração japonesa

(Foto: Acervo Museu Histórico da imigração Japonesa no Brasilo)


Engajamento: Deputado estadual nissei Yukishige Tamura participava constantemente de reuniões da comunidade

Até a década de 1940, a maior parte dos filhos de imigrantes japoneses nascidos em terras brasileiras, os nisseis (segunda geração), eram educados sob a égide do hino-maru e dos preceitos do espírito japonês (“Yamato damashii”). A manutenção de valores culturais, como o ensino da língua japonesa, tinha como objetivo prepará-los para volta à terra dos pais, o Japão. No entanto, o contato com a realidade brasileira, a cultura e a língua nacional, começaram a influenciar diretamente o modo de agir e de ser de alguns nisseis.

“A nossa mentalidade”

O primeiro momento em que podemos constatar publicamente essas divergências pode ser visto no “incidente do crisântemo”, ocorrido em 1935, quando o jovem Cassio Kenro Shimomoto, primeiro nissei a se tornar bacharel em direito pelo Largo São Francisco (1936), publicou um artigo na revista Gakusei (O Estudante), intitulado “A Nossa Mentalidade”. A primeira frase dava o tom do artigo: “Os brasileiros descendentes de japoneses têm uma grande responsabilidade perante a Nação Brasileira”. Em um universo no qual a maior parte dos nisseis ao nascer eram registrados no consulado japonês, possuindo dupla nacionalidade, a crise estava instalada. Contribuiu muito para isso o questionamento de Shimomoto, ao argumentar: “Como poderemos amar a terra dos nossos antepassados? Se nem a conhecemos? Podemos ter, quando muito, um sentimento de respeito pela pátria de nossos pais, mas nunca a idéia de patriotismo pela terra dos crisântemos”. Os questionamentos suscitados em um período (década de 1930) no qual o nacionalismo japonês estava na ordem do dia e em que boa parte da comunidade de japoneses fora do Japão comungava com os preceitos do Dai-Nippon, o artigo de Shimomoto foi visto como uma grande heresia.

A difícil situação da comunidade japonesa durante os anos de Guerra, a derrota do Japão na II Guerra Mundial e, como conseqüência, o fim do projeto de voltar para o país do Sol Nascente, os tristes acontecimentos associados a Shindô Renmei, a reativação da imigração para o Brasil, no início da década de 1950, e a inserção cada vez maior de descendentes de japoneses na política e na sociedade brasileira foram elementos importantes na reafirmação de certos valores e na criação de novos, no difícil diálogo entre gerações.

Durante os preparativos para o IV Centenário da Cidade de São Paulo (1954), com o intuito de colaborar com a comemoração, em 1952, criou-se uma Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró-Centenário da Cidade de São Paulo. O fato importante a ser ressaltado foi que, pela primeira vez, uma entidade englobava representantes da comunidade nikkei do período anterior e posterior à guerra.

Conflito de gerações

Tomoo Handa, em seu livro O Imigrante Japonês, ao narrar esse episódio, expõe as diferenças de projetos entre isseis e nisseis presentes na época. O autor narra que, no início dos preparativos para a formação da comissão, ocorreram dificuldades em arregimentar um número significativo de pessoas da comunidade dispostas a participar. Desde as primeiras reuniões, figurava entre os participantes o deputado estadual nissei Yukishige Tamura, fato que, segundo Handa, seria inusitado no período anterior à guerra.

Coincidência ou não, Tamura foi o terceiro nissei a se tornar bacharel em direito pelo Largo São Francisco (1939).

Além disso, o deputado apresentou como metas à nascente comissão algumas sugestões, como construir escolas primárias em todas as capitais do Brasil, criar órgãos de assistência social e até construir uma igreja. A apreensão e a surpresa por parte dos isseis participantes causadas pelas sugestões do deputado, demonstravam que a comunidade japonesa nos idos da década de 1950 tomava novos rumos. Sob a ótica da maioria da comissão, formada por isseis e por representantes do governo japonês, os objetivos do grupo deveriam ser “estritamente comemorativos”, portanto despojados de qualquer caráter político ou religioso.

Esse descompasso inicial quase levou à efetiva formação de duas comissões, uma “oficial”, denominada Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró IV Centenário da Cidade de São Paulo” e uma outra paralela, liderada pelo deputado Tamura. Com a aproximação das comemorações do IV Centenário, as duas correntes acabaram por se unir.

NOTA DA REDAÇÃO
Texto realizado por Rogério Dezem - Historiador e pesquisador da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000) e Matizes do “Amarelo”: a gênese dos dicursos sobre os orientais no Brasil (1878–1908) (São Paulo, Associação Editorial Humanitas/FAPESP, 2005).
 
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