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(Foto:
Acervo Museu Histórico da imigração Japonesa
no Brasilo)

Engajamento:
Deputado estadual nissei Yukishige Tamura participava constantemente
de reuniões da comunidade
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Até
a década de 1940, a maior parte dos filhos de imigrantes
japoneses nascidos em terras brasileiras, os nisseis (segunda
geração), eram educados sob a égide do hino-maru
e dos preceitos do espírito japonês (Yamato
damashii). A manutenção de valores culturais,
como o ensino da língua japonesa, tinha como objetivo prepará-los
para volta à terra dos pais, o Japão. No entanto,
o contato com a realidade brasileira, a cultura e a língua
nacional, começaram a influenciar diretamente o modo de
agir e de ser de alguns nisseis.
A
nossa mentalidade
O
primeiro momento em que podemos constatar publicamente essas divergências
pode ser visto no incidente do crisântemo, ocorrido
em 1935, quando o jovem Cassio Kenro Shimomoto, primeiro nissei
a se tornar bacharel em direito pelo Largo São Francisco
(1936), publicou um artigo na revista Gakusei (O Estudante), intitulado
A Nossa Mentalidade. A primeira frase dava o tom do
artigo: Os brasileiros descendentes de japoneses têm
uma grande responsabilidade perante a Nação Brasileira.
Em um universo no qual a maior parte dos nisseis ao nascer eram
registrados no consulado japonês, possuindo dupla nacionalidade,
a crise estava instalada. Contribuiu muito para isso o questionamento
de Shimomoto, ao argumentar: Como poderemos amar a terra
dos nossos antepassados? Se nem a conhecemos? Podemos ter, quando
muito, um sentimento de respeito pela pátria de nossos
pais, mas nunca a idéia de patriotismo pela terra dos crisântemos.
Os questionamentos suscitados em um período (década
de 1930) no qual o nacionalismo japonês estava na ordem
do dia e em que boa parte da comunidade de japoneses fora do Japão
comungava com os preceitos do Dai-Nippon, o artigo de Shimomoto
foi visto como uma grande heresia.
A difícil
situação da comunidade japonesa durante os anos
de Guerra, a derrota do Japão na II Guerra Mundial e, como
conseqüência, o fim do projeto de voltar para o país
do Sol Nascente, os tristes acontecimentos associados a Shindô
Renmei, a reativação da imigração
para o Brasil, no início da década de 1950, e a
inserção cada vez maior de descendentes de japoneses
na política e na sociedade brasileira foram elementos importantes
na reafirmação de certos valores e na criação
de novos, no difícil diálogo entre gerações.
Durante
os preparativos para o IV Centenário da Cidade de São
Paulo (1954), com o intuito de colaborar com a comemoração,
em 1952, criou-se uma Comissão Colaboradora da Colônia
Japonesa Pró-Centenário da Cidade de São
Paulo. O fato importante a ser ressaltado foi que, pela primeira
vez, uma entidade englobava representantes da comunidade nikkei
do período anterior e posterior à guerra.
Conflito
de gerações
Tomoo
Handa, em seu livro O Imigrante Japonês, ao narrar esse
episódio, expõe as diferenças de projetos
entre isseis e nisseis presentes na época. O autor narra
que, no início dos preparativos para a formação
da comissão, ocorreram dificuldades em arregimentar um
número significativo de pessoas da comunidade dispostas
a participar. Desde as primeiras reuniões, figurava entre
os participantes o deputado estadual nissei Yukishige Tamura,
fato que, segundo Handa, seria inusitado no período anterior
à guerra.
Coincidência
ou não, Tamura foi o terceiro nissei a se tornar bacharel
em direito pelo Largo São Francisco (1939).
Além
disso, o deputado apresentou como metas à nascente comissão
algumas sugestões, como construir escolas primárias
em todas as capitais do Brasil, criar órgãos de
assistência social e até construir uma igreja. A
apreensão e a surpresa por parte dos isseis participantes
causadas pelas sugestões do deputado, demonstravam que
a comunidade japonesa nos idos da década de 1950 tomava
novos rumos. Sob a ótica da maioria da comissão,
formada por isseis e por representantes do governo japonês,
os objetivos do grupo deveriam ser estritamente comemorativos,
portanto despojados de qualquer caráter político
ou religioso.
Esse
descompasso inicial quase levou à efetiva formação
de duas comissões, uma oficial, denominada
Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró
IV Centenário da Cidade de São Paulo e uma
outra paralela, liderada pelo deputado Tamura. Com a aproximação
das comemorações do IV Centenário, as duas
correntes acabaram por se unir.
NOTA
DA REDAÇÃO
Texto realizado por Rogério Dezem - Historiador e pesquisador
da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor
de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série
Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000) e
Matizes do Amarelo: a gênese dos dicursos
sobre os orientais no Brasil (18781908) (São
Paulo, Associação Editorial Humanitas/FAPESP,
2005). |
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