PORTAL NIPPO-BRASIL - 10 ANOS ONLINE
Sexta-feria, 30 de julho de 2010
Cooperativa Agrícola Central Sul-Brasil,
referência nacional de cooperativismo
Guenitiro Nacazawa deu início a um processo de remodelação e
expansão da atividade cooperativa no Brasil

( Rogério Dezem* /Foto: Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasill)

Nacazawa foi um dos principais
articuladores da Sul-Brasil

Criada a partir da iniciativa de 49 plantadores de batata e sob a orientação e subvenção do Consulado Geral do Japão em São Paulo em 1929, a Cooperativa Agrícola de Juqueri foi uma das cooperativas japonesas pioneiras no Brasil. Sua história está associada à figura do imigrante japonês Guenitiro Nacazawa (1907–1984), possuidor de um perfil diferente da maioria dos emigrantes japoneses.

Bacharel em Pedagogia e Filosofia pela Universidade de Tóquio (1930) e primogênito da família Nakazawa, o jovem Guenitiro, recém-casado, decidiu emigrar para o Brasil, mesmo sob os protestos da família de sua jovem esposa, Yuri. Apoiado pelo pai e com o ideal de empreender novas atividades agrícolas, aportou em Santos no dia 2 de agosto de 1933.

Após algumas andanças pelo interior de São Paulo e pelo norte do do Paraná, Guenitiro acabou por se estabelecer, na Vila Juqueri, subúrbio da capital paulista, atual munícipio de Mairiporã. Lá, segundo o próprio Guenitiro, o clima era bom e o solo propício para as atividades agrícolas.

Na gleba de terra adquirida, deu início ao cultivo de batata inglesa e tomate, além da criação de aves de postura, sendo o pioneiro na região. Tornou-se cooperado da Sociedade Cooperativa dos Produtores Agrícolas em Juqueri, iniciando um estreito relacionamento com a cooperativa até o seu falecimento. Na entidade, exerceu os cargos de gerente, superintendente (1939-1973) e, logo depois, diretor-presidente.

No final década de 30, a cooperativa estava quase falida, com apenas 92 associados em dez anos de existência. Naquele momento, o jovem Nacazawa foi convidado a se tornar gerente da sociedade; era o ano de 1939.

Deu-se o início de um processo de remodelação e expansão da cooperativa, objetivando, entre outras coisas, aumentar o número de cooperados. Pouco tempo depois, no ano de 1954, a Sociedade Cooperativa dos Produtores Agrícolas em Juquerí mudava seu nome para Cooperativa Agrícola Central Sul-Brasil, abrigando, no seu quadro social, três cooperativas de 1 grau e mais 1.192 produtores, com área de atuação que abrangia desde Pernambuco até o Rio Grande do Sul, com postos de vendas de produtos instalados nas cidades de Santos, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre e em vários bairros de São Paulo. O sensível aumento do número de cooperados entre as décadas de 1950/1960 pode ser notado no quadro abaixo:

Ano
1929
1939
1949
1959
1969
1977
1988
Cooperados
49
92
563
2.655
6.548
6.419
10.074
Fonte: Adaptado a partir de Guenitiro Nacazawa – curriculum vitae. 1977. Cópia datilografada.

A partir da década de 1950, ocorreu um processo de diversificação nas atividades agrícolas da cooperativa. A criação de uma estação experimental em Atibaia (SP) deu início a uma série de experimentos e melhoramentos de linhagens na área de avicultura e de produção de hortaliças.

Em 1969, em comemoração do 40º aniversário da fundação da cooperativa, foi criado o Parque Florestal Sul-Brasil, com uma área de 1,4 mil hectares reflorestada com “pinus” e eucalipto. No início da década de 1970, a cooperativa associada a projetos dos governos estadual e federal (Plano Nacional do Desenvolvimento do Cerrado) deu início à exploração agrícola na região do cerrado mineiro.

Em 1977, haviam 38 cooperativas associadas, 30 em São Paulo, 6 no Paraná, uma no Rio de Janeiro e uma no Pará. Na época, a Cooperativa Agrícola Central Sul-Brasil foi considerada pelo Ministério da Agricultura como uma das melhores e mais bem organizadas do Brasil.

Essa trajetória de sucesso muito se deveu à figura de Guenitiro Nacazawa, como também aos milhares de cooperados que, com seu trabalho na lavoura, consolidaram um modelo de cooperativa que se tornou referência na história da imigração japonesa no Brasil.

NOTA DA REDAÇÃO
*Texto realizado por Rogério Dezem - historiador e pesquisador da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000) e Matizes do “Amarelo”: a gênese dos dicursos sobre os orientais no Brasil (1878-1908) (São Paulo, Associação Editorial Humanitas/Fapesp, 2005).
 
História da Imigração
O extremo sul do Brasil na história da imigração japonesa
"Senhor(a) Emigrante"
Casamentos interétnicos
A vida no Centro de Emigrantes de Kobe
Movimento para a construção do Centro de Emigrantes
Indústria à nipo-brasileira:
a economia nikkei (parte II)
Indústria à nipo-brasileira:
a economia nikkei (parte I)
Véspera da partida do navio Kasato Maru
A religião e os nikkeis no pós-guerra
Navegação cheia de confusões
Cooperativa Agrícola Central Sul-Brasil, referência nacional de cooperativismo
Kasato Maru: o primeiro navio de emigrantes ao Brasil
O Prédio da Emigração em Kobe e a Hospedaria de Emigrantes
Contexto brasileiro - Nisseis (parte II) ascensão
Contexto brasileiro - Nisseis (parte I)
A elegia da Colina de Emigrantes
Mapeando a Imigração
Os três grandes cenários do porto de Kobe
Música, a mais pura fragrância da terra natal
Disposição para se relacionar com outros mundos
Miyagi-kai, ouvidos para os sons do Ocidente
“Senso artístico que dá lustro à vida”
Grupo Miwa: música, modernidade e solidariedade
A alma mais tropical e o bolso mais pobre do Japão
Música para koto: histórias do dragão confabulando
Nishikigoi: encantamento, técnica e ação política
O poder dos festivais de música folclórica japonesa
Música Folclórica Japonesa, os variados caminhos de atuação
Min’you - tradição musical japonesa
Cine Niterói, a referência do bairro da Liberdade
Balada de Narayama, filme de estréia da Shochiku no Brasil
Cinema Japonês: chegam as grandes distribuidoras
“Vida de artista”, o cinema japonês no Brasil
Nippaku Cinemasha (2) - Velhas lembranças de um tempo do cinema
Nippaku Cinemasha (1) - A pioneira do cinema ambulante
Os primeiros filmes japoneses no Brasil
Ichiro Wakiyama: música para acalmar os sofrimentos
Ichiro Wakiyama o talento a serviço da música
Música entre os imigrantes: o talento de Ichiro Wakiyama
Daimao, dedicação à arte da magia
Lembranças do kabuki: os tempos
Lembranças de um ator de kabuki
Cinema-teatro: o sucesso de uma novidade
Memórias de um ator do teatro nipo-brasileiro
Arquivo - História da Imigração
Veja todas as matérias publicadas
 Link direto com a redação (sugestões, dúvidas ou reclamações): Clique aqui
  © Copyright 1992-2010 - Jornal NippoBrasil - Todos os direitos reservados - www.nippo.com.br - www.zashi.com.br