PORTAL NIPPO-BRASIL - 10 ANOS ONLINE
Quarta-feira, 08 de setembro de 2010
Indústria à nipo-brasileira: a economia nikkei (parte I)
Não apenas de agricultura e comércio viviam os japoneses e seus descendentes
aqui radicados principalmente a partir da década de 1950

( Rogério Dezem* /Foto: Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)

Fachada da Cooperativa Agrícola de Cotia na década de 30
 
Os maiores empreendimentos
em junho de 1988 (ordem decrescente)
EMPRESA
RAMO
Coopercotia Alimentos
Banco América do Sul Banco
Cooperativa Sul-Brasil Alimentos
Maeda Agropecuária
Matsubara Agropecuária
Cotia Crédito Rural Cooperativa de crédito
Takenaka Fertilizantes
Óleos Pacembu Alimentos
Sansuy Plásticosl
Nakata Mecânica
T. Tanaka Importação
Motorádio Eletroeletrônica
N. Sra. da Penha Indústria de papel
Jacto Mecânica
Kitano Alimentos
Gyotoku Cerâmica
Ito Ovos Alimentos
Bratac Fiação de seda
Papelok Indústria de papel
Granja Saito Alimentos

A primeira década do pós-guerra (1945- 1955) marcou o início de uma nova dinâmica econômica para a comunidade nipo-brasileira. Em 1958, o número de japoneses e descendentes que trabalhavam na indústria era de 7,2% da população. Trinta anos depois, esse percentual se elevou para 15, 81%. Além de ser um reflexo do exôdo rural, esses dados também atestam um aumento do processo de inclusão dos nikkeis nos setores secundário e terciário da economia nacional.

Nesse período, iniciativas por parte de pequenos e médios empreendedores nikkeis, tornavam-se patentes. São vários os exemplos e histórias que podem ilustrar esse processo.

O Banco América do Sul, ex- Casa Bancária Bratac, surgida no final da década de 30, com capital japonês inicial de 100 contos de réis, tinha como objetivo “crescer no contexto brasileiro, a serviço de toda a sociedade”. No entanto, a Segunda Guerra e as restrições junto à comunidade japonesa adiaram por quase dez anos esses objetivos. Ocorreu a intervenção do governo junto ao banco que, com pouco mais de um ano e meio de funcionamento, foi vendido para um grupo brasileiro em 1942.

No final de 1945, iniciou-se um movimento na comunidade objetivando a recompra do banco. Durante as negociações, o grupo propôs uma sociedade, que não foi aceita pelos representantes da comunidade. Estipulou-se um valor para compra acima do valor real, fato que quase interrompeu as negociações. Ocorreu, então, um movimento na comunidade visando a capitar a quantia necessária para recompra.

Com capital amealhado junto a pequenos acionistas, o banco foi recomprado e deu-se início a um plano de reformulação em sua estrutura. Já na década de 1950, o Banco América o Sul tornava-se um dos grandes ícones da comunidade nikkei, chegando a constituir, na década de 80, um sólido grupo constituído de 14 empresas.

Outra interessante história é a do imigrante Hiroshi Urushima, que sonhava em fabricar rádios para automóveis. Natural de Kagoshima, chegou ao Brasil em 1936 com os pais e sete irmãos. Desde cedo, ele optou pela eletrônica ao trabalho na lavoura no Paraná, onde a família se radicou em seus primeiros tempos.

Foi a partir de sua experiência na oficina de um imigrante alemão, que consertava rádios no bairro de Pinheiros, em São Paulo, no início dos anos 40, que Urushima ficou fascinado e prometeu para si mesmo “fazer um auto-rádio dentro das possibilidades”. Leu e estudou com afinco os manuais técnicos em japonês, e realizou alguns testes, até que, com peças avulsas, fabricou seu primeiro rádio, que pesava “apenas” 5 kg.

Em 1957, com a chegada da Volkswagen e a montagem de sua primeira fábrica em São Paulo, Urushima já produzia 400 aparelhos por mês. Foi o embrião do que veio a ser a Motorádio, fundada em 1964, que chegou a possuir três fábricas e mais de 2,5 mil funcionários (1988).

Em 1964, o atacadista Yoshikazu Tanaka introduziu máquinas e tecnologia do Japão para inaugurar a Papelok S.A. Indústria e Comércio. Dois anos depois, alguns cultivadores de batatas se cotizaram para fundar a Sansuy S.A. Indústria de Plásticos, fabricante de artigos plásticos para fins agrícolas, silos e armazéns plásticos.


NOTA DA REDAÇÃO
*Texto realizado por Rogério Dezem - historiador e pesquisador da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000) e Matizes do “Amarelo”: a gênese dos dicursos sobre os orientais no Brasil (1878-1908) (São Paulo, Associação Editorial Humanitas/Fapesp, 2005).
 
História da Imigração
Museu Histórico da Imigração Japonesa
Tor Hotel, Tor Road
O extremo sul do Brasil na história da imigração japonesa
"Senhor(a) Emigrante"
Casamentos interétnicos
A vida no Centro de Emigrantes de Kobe
Movimento para a construção do Centro de Emigrantes
Indústria à nipo-brasileira:
a economia nikkei (parte II)
Indústria à nipo-brasileira:
a economia nikkei (parte I)
Véspera da partida do navio Kasato Maru
A religião e os nikkeis no pós-guerra
Navegação cheia de confusões
Cooperativa Agrícola Central Sul-Brasil, referência nacional de cooperativismo
Kasato Maru: o primeiro navio de emigrantes ao Brasil
O Prédio da Emigração em Kobe e a Hospedaria de Emigrantes
Contexto brasileiro - Nisseis (parte II) ascensão
Contexto brasileiro - Nisseis (parte I)
A elegia da Colina de Emigrantes
Mapeando a Imigração
Os três grandes cenários do porto de Kobe
Música, a mais pura fragrância da terra natal
Disposição para se relacionar com outros mundos
Miyagi-kai, ouvidos para os sons do Ocidente
“Senso artístico que dá lustro à vida”
Grupo Miwa: música, modernidade e solidariedade
A alma mais tropical e o bolso mais pobre do Japão
Música para koto: histórias do dragão confabulando
Nishikigoi: encantamento, técnica e ação política
O poder dos festivais de música folclórica japonesa
Música Folclórica Japonesa, os variados caminhos de atuação
Min’you - tradição musical japonesa
Cine Niterói, a referência do bairro da Liberdade
Balada de Narayama, filme de estréia da Shochiku no Brasil
Cinema Japonês: chegam as grandes distribuidoras
“Vida de artista”, o cinema japonês no Brasil
Nippaku Cinemasha (2) - Velhas lembranças de um tempo do cinema
Nippaku Cinemasha (1) - A pioneira do cinema ambulante
Os primeiros filmes japoneses no Brasil
Ichiro Wakiyama: música para acalmar os sofrimentos
Ichiro Wakiyama o talento a serviço da música
Música entre os imigrantes: o talento de Ichiro Wakiyama
Daimao, dedicação à arte da magia
Lembranças do kabuki: os tempos
Lembranças de um ator de kabuki
Cinema-teatro: o sucesso de uma novidade
Memórias de um ator do teatro nipo-brasileiro
Arquivo - História da Imigração
Veja todas as matérias publicadas
 Link direto com a redação (sugestões, dúvidas ou reclamações): Clique aqui
  © Copyright 1992-2010 - Jornal NippoBrasil - Todos os direitos reservados - www.nippo.com.br - www.zashi.com.br