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Sexta-feria, 10 de setembro de 2010
Casamentos interétnicos
No passado, matrimônios com não nikkeis enfrentavam muita resistência das famílias

(Rogério Dezem*/ Foto: Divulgação)

Ontem (fim da década de 1930) e hoje: de japonês a brasileiro

Em 1932, foi publicado no Brasil o livro Raça e Assimilação, do intelectual Oliveira Vianna. Nessa obra de repercussão nacional, o autor afirmava categoricamente que os imigrantes japoneses eram como “enxofre”, ou seja “inassimiláveis”. Passados pouco mais de 75 anos, o que podemos notar na sociedade atual é um outro quadro. O processo de assimilação ocorreu lentamente, com alguns obstáculos, mas de forma gradual. Um dos principais indicadores desse processo pode ser notado a partir dos casamentos interétnicos, ou seja fora do grupo étnico.

No caso dos imigrantes japoneses, desde o início da sua história em terras brasileiras, vários são os relatos de resistência ao casamento com os brasileiros e/ ou não brasileiros, que resultaram em brigas familiares e fugas por parte daqueles, ou principalmente daquelas, que viessem a se relacionar com alguém fora do grupo étnico. Os anos se passaram e as resistências, muito lentamente, foram se abrandando. Por exemplo, na cidade de Presidente Prudente (SP), no ano de 1945, dos 28 casamentos nikkeis registrados no cartório de Registro Civil, nenhum foi interétnico.

Em 1952, o antropólogo Seiichi Izumi (1915-1970) realizou uma pesquisa junto às famílias japonesas no Brasil a respeitoda atitude dos pais com relação à escolha do cônjuge para seus filhos. Os números são interessantes: com relação aos filhos, 31,8% dos pais admitiam a livre escolha do cônjuge pelos próprios filhos, mas essa porcentagem diminui para 18% no caso das filhas. Segundo a pesquisa, o restante (pouco mais de 50%) ou não permitia a livre escolha do cônjuge por seus filhos, ou queria ser consultado antes de decidir pela escolha.

No Censo da Colônia Japonesa levantado em 1958, a incidência de casamentos mistos na comunidade era maior entre os homens 14,07%, enquanto para as nikkeis era de 7,36%, ou seja metade. Segundo a antropóloga Sumi Butsugam, alguns fatores socioculturais poderiam ser relevantes para essa diferença.

Uma hipótese seria a de que os homens teriam maiores oportunidades de contato social com pessoas de outras etnias, devido à necessidades de caráter profissional, já as mulheres recebiam educação para o lar (década de 1950), tendo pouca ou quase nenhuma oportunidade de trabalho fora do espaço doméstico ou familiar. Como era uma mentalidade corrente na comunidade japonesa aqui radicada “lugar de mulher é no lar”. Com o passar do tempo ocorreu uma maior inserção da mulher nikkei em vários segmentos trabalhistas, o que contribuiu para a mudança desse quadro.

Dessa forma, pode-se entender o casamento como uma maneira eficiente de preservar na família as tradições lingüísticas, religiosas e culturais trazidas do Japão, ou seja, durante muito tempo (até a década de 1970) para boa parte japoneses aqui radicados era uma forma de “proteção”.

Para explicar esse processo, o sociólogo Hiroshi Saito dividiu em três os tipos de atitudes dos pais com relação ao casamento interétnico: “oposição categórica” (até o final da década de 1940); “conformismo ou resistência passiva” (entre as décadas de 1950 e 1960) e “aprovação tácita para a aprovação positiva” (fim da década de 1960 em diante). Hipótese essa confirmada em boa parte dos estudos de caso.

Às vésperas de se comemorar o centenário da imigração japonesa no Brasil os casamentos entre nikkeis e não descendentes perfazem pouco mais 45% da totalidade de casamentos com a participação de descendentes japoneses, sinais dos tempos e de um processo lento, gradual e positivo de miscigenação étnica. Ainda bem que Oliveira Vianna estava errado...

NOTA DA REDAÇÃO
*Rogério Dezem é historiador e pesquisador da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000) e Matizes do Amarelo: a gênese dos dicursos sobre os orientais no Brasil (1878-1908) (São Paulo, Associação Editorial Humanitas/Fapesp, 2005).

(Bibliografia Consultada: Adaptado a partir de Sumi Butsugan. “Participação social e tendência de casamentos interétnicos”. pp. 100-112. In: Hiroshi Saito (org.). A presença japonesa no Brasil. São Paulo; T.A. Queiroz/EDUSP, 1980.

 
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