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(Rogério
Dezem*/ Foto: Divulgação)
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Ontem
(fim da década de 1930) e hoje: de japonês
a brasileiro
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Em
1932, foi publicado no Brasil o livro Raça e Assimilação,
do intelectual Oliveira Vianna. Nessa obra de repercussão
nacional, o autor afirmava categoricamente que os imigrantes japoneses
eram como enxofre, ou seja inassimiláveis.
Passados pouco mais de 75 anos, o que podemos notar na sociedade
atual é um outro quadro. O processo de assimilação
ocorreu lentamente, com alguns obstáculos, mas de forma
gradual. Um dos principais indicadores desse processo pode ser
notado a partir dos casamentos interétnicos, ou seja fora
do grupo étnico.
No
caso dos imigrantes japoneses, desde o início da sua história
em terras brasileiras, vários são os relatos de
resistência ao casamento com os brasileiros e/ ou não
brasileiros, que resultaram em brigas familiares e fugas por parte
daqueles, ou principalmente daquelas, que viessem a se relacionar
com alguém fora do grupo étnico. Os anos se passaram
e as resistências, muito lentamente, foram se abrandando.
Por exemplo, na cidade de Presidente Prudente (SP), no ano de
1945, dos 28 casamentos nikkeis registrados no cartório
de Registro Civil, nenhum foi interétnico.
Em
1952, o antropólogo Seiichi Izumi (1915-1970) realizou
uma pesquisa junto às famílias japonesas no Brasil
a respeitoda atitude dos pais com relação à
escolha do cônjuge para seus filhos. Os números são
interessantes: com relação aos filhos, 31,8% dos
pais admitiam a livre escolha do cônjuge pelos próprios
filhos, mas essa porcentagem diminui para 18% no caso das filhas.
Segundo a pesquisa, o restante (pouco mais de 50%) ou não
permitia a livre escolha do cônjuge por seus filhos, ou
queria ser consultado antes de decidir pela escolha.
No
Censo da Colônia Japonesa levantado em 1958, a incidência
de casamentos mistos na comunidade era maior entre os homens 14,07%,
enquanto para as nikkeis era de 7,36%, ou seja metade. Segundo
a antropóloga Sumi Butsugam, alguns fatores socioculturais
poderiam ser relevantes para essa diferença.
Uma
hipótese seria a de que os homens teriam maiores oportunidades
de contato social com pessoas de outras etnias, devido à
necessidades de caráter profissional, já as mulheres
recebiam educação para o lar (década de 1950),
tendo pouca ou quase nenhuma oportunidade de trabalho fora do
espaço doméstico ou familiar. Como era uma mentalidade
corrente na comunidade japonesa aqui radicada lugar de mulher
é no lar. Com o passar do tempo ocorreu uma maior
inserção da mulher nikkei em vários segmentos
trabalhistas, o que contribuiu para a mudança desse quadro.
Dessa
forma, pode-se entender o casamento como uma maneira eficiente
de preservar na família as tradições lingüísticas,
religiosas e culturais trazidas do Japão, ou seja, durante
muito tempo (até a década de 1970) para boa parte
japoneses aqui radicados era uma forma de proteção.
Para
explicar esse processo, o sociólogo Hiroshi Saito dividiu
em três os tipos de atitudes dos pais com relação
ao casamento interétnico: oposição
categórica (até o final da década de
1940); conformismo ou resistência passiva (entre
as décadas de 1950 e 1960) e aprovação
tácita para a aprovação positiva (fim
da década de 1960 em diante). Hipótese essa confirmada
em boa parte dos estudos de caso.
Às
vésperas de se comemorar o centenário da imigração
japonesa no Brasil os casamentos entre nikkeis e não descendentes
perfazem pouco mais 45% da totalidade de casamentos com a participação
de descendentes japoneses, sinais dos tempos e de um processo
lento, gradual e positivo de miscigenação étnica.
Ainda bem que Oliveira Vianna estava errado...
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NOTA
DA REDAÇÃO
*Rogério Dezem é historiador e pesquisador
da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor
de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série
Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000)
e Matizes do Amarelo: a gênese dos dicursos sobre
os orientais no Brasil (1878-1908) (São Paulo, Associação
Editorial Humanitas/Fapesp, 2005).
(Bibliografia
Consultada: Adaptado a partir de Sumi Butsugan. Participação
social e tendência de casamentos interétnicos.
pp. 100-112. In: Hiroshi Saito (org.). A presença
japonesa no Brasil. São Paulo; T.A. Queiroz/EDUSP,
1980.
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