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Sexta-feria, 12 de março de 2010
A religião e os nikkeis no pós-guerra
Para se compreender o papel da religião na vida dos imigrantes japoneses e
de seus descendentes, devemos nos ater à palavra “sincretismo”

( Rogério Dezem* /Foto: Elcio Ohnumal)

Sede da Igreja Tenrikyo, em Bauru,
interior de São Paulo

Não foram apenas o budismo e o xintoísmo as religiões cultuadas pelos japoneses e seus descendentes aqui radicados. O cristianismo a partir de religiões como o catolicismo e o protestantismo e as religiões de origem japonesa, como a Omoto-kyô, Tenrikyo e Seicho-No-Ie também passaram a fazer parte do cotidiano da comunidade japonesa. Só para citar algumas surgidas ainda no período pré-guerra, no qual o “culto aos antepassados” e o “culto às deidades da comunidade” eram os elementos religiosos mais presentes.

Fator que contribuiu para a inserção social do imigrante japonês, a religiosidade passou a ser algo mais visível na colônia japonesa a partir da década de 1920, sempre tendo o sincretismo como um elemento coadunador. Para muitos japoneses aqui radicados, por exemplo, aspectos do budismo e do xintoísmo não estavam necessariamente dissociados do catolicismo, fato este que causava uma certa estranheza entre os brasileiros.

Segundo Koichi Mori, professor da disciplina de cultura japonesa da FFLCH/USP, o período pós-guerra foi marcado pela “ressurreição das religiões japonesas”, produto de uma série de mudanças, como a idéia de permanecer definitivamente no Brasil, a forte migração urbana, o crescimento do número de nisseis e a desintegração de uma visão de mundo orientada pelo culto à figura do imperador associado ao xintoísmo. No final da década de 1950, segundo dados da Comissão de Recenseamento da Colônia Japonesa (1964), essas eram as porcentagens das religiões declaradas pelos descendentes de japoneses no Brasil, comparando as zonas rural e urbana:

Brasil
Rural
Urbano
Religião japonesa tradicional
44,5%
50,1%
37,9%
Católica (Brasil)
42,8%
36,5%
50,3%
Outras
12,7%
13,4%
11,8%
Fonte: Adaptado a partir de dados do Censo da Colônia Japonesa, 1964

A partir das décadas de 1960/70 as chamadas Novas Religiões Japonesas (NRJ), como a Igreja Messiânica Mundial do Brasil (IMMB) e a Perfect Liberty (PL), inicialmente restritas aos japoneses e a seus descendentes, expandiram-se entre os não descendentes. Esse fato se deveu, segundo Andréa Santiago Tomita, pesquisadora e mestre em Letras, ao caráter mais universal dessas religiões que foram “traduzidas” para a cultura brasileira, tornando-se mais “acessíveis” aos não japoneses. Além disso, elas acabam por transmitir noções culturais japonesas à sociedade brasileira, algumas usando a língua portuguesa como elemento coadunador.

Um exemplo foi a Secho-No-Ie, que, em meados da década de 1960, modificou radicalmente as diretrizes do trabalho de difusão de sua doutrina, ao criar um Departamento de Trabalho Doutrinário em Língua Portuguesa, objetivando atingir os não descendentes de japoneses. Resultado disso foi que, 20 anos depois (1988), 85% dos adeptos eram não nikkeis.

Nesse processo de universalização da religião, Mori divide as religiões japonesas aqui radicadas em dois blocos: aquelas que romperam a barreira da etnicidade graças ao seu sincretismo, que mescla, em sua doutrina, aspectos das religiões tradicionais, como o budismo e o xintoísmo, como Seicho-No-Ie, Igreja Messiânica, Perfect Liberty, Soka Gakkai e Suko Mahikari. E aquelas que ainda não conseguiram penetração expressiva entre os não descendentes: Tenrikyo, Risho-Koseikai e algumas seitas budistas mais tradicionais. Segundo dados do Censo de 2000 do IBGE, o número de adeptos de religiões japonesas era o seguinte:

Religião
Total de adeptos (2000)
Igreja Messiânica Mundial
109.310
Seicho-No-Ie
27.784
Perfect Liberty
5.465
Tenrikyo
3.786
Mahicari
3.054

Fontes consultadas
Koichi Mori, “A vida religiosa dos japoneses e seus descendentes residentes no Brasil e as religiões de origem japonesa”. In: Uma Epopéia Moderna – 80 anos da Imigração Japonesa no Brasil, vários autores, Ed. Hucitec e Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, SP, 1992. Andréa G. Santiago Tomita, “As Novas Religiões Japonesas como instrumento de transmissão de cultura japonesa no Brasil”. In: Revista de Estudos da Religião, n° 3, 2004. pp. 88-102.

NOTA DA REDAÇÃO
*Texto realizado por Rogério Dezem - historiador e pesquisador da história dos imigrantes japoneses no Brasil. Autor de Shindô Renmei: Terrorismo e Repressão (Série Inventários Deops; São Paulo, AESP, 2000) e Matizes do “Amarelo”: a gênese dos dicursos sobre os orientais no Brasil (1878-1908) (São Paulo, Associação Editorial Humanitas/Fapesp, 2005).
 
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