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Sexta-feria, 30 de julho de 2010

A vida se resume em 50 anos
Nos dias de hoje, muita coisa mudou; ninguém estranha quando um japonês completa 100 anos
 

(Texto: Minami Keizi | Foto: Divulgação)

No início da imigração japonesa, a perspectiva de vida dos nipônicos era de 50 anos. Uma canção muito popular enaltecia que: “Jinsei wasuka 50 nen...”, a vida se resume em somente 50 anos. Todavia, muita coisa mudou, nos dias de hoje, ninguém estranha mais quando um japonês completa 100 anos. Naquela época, muitos pereceram de fome. Os tempos em que eram mal-alimentados, desnutridos, ficaram para trás. O Japão, depois da II Grande Guerra, reergueu-se e se tornou uma potência econômica mundial.

Sempre ouvia papai cantar a canção da vida até aos 50 anos. Havia também uma outra canção pessimista que, de tão negativa, foi proibida pelo governo japonês:

“Eu sou aquela árvore seca à beira do rio.
Você e eu somos como aquela árvore seca,
Não daremos mais frutos...”

Era mais ou menos as primeiras estrofes em tradução literal.

Como se vê, o governo Tokugawa, embora tenha durado 300 anos, não foi muito bom para o povo japonês. O imperador Meiji realizou mudanças, mas as conseqüências continuaram, inclusive na Era Taisho e continuou na Era Showa até a derrota na Guerra. Aí, o Japão desceu ao fundo do poço e teve que buscar forças para começar uma nova de era de paz e progresso.

A renúncia

Papai casou-se com minha mãe quando seu marido, meu tio, faleceu em conseqüência de um câncer no estômago, deixando quatro filhos, o mais novo com 6 meses de idade, em 1940. De acordo com o costume da família, viúva, minha mãe teria que regressar para a família original, com os filhos. Vovô não queria se separar dos netos e resolveu casar papai com a cunhada dele, para dar continuidade à família.

Por certo, foi um golpe duro para papai. Jovem, bonito, certamente papai deve ter vivido um dilema. Pode ser que ele já tivesse a sua eleita. Todavia, o amor pelos sobrinhos suplantou tudo isso e papai se casou com a minha mãe.

Eu sou o segundo filho nascido dessa união. Pai teve quatro filhos. As duas irmãs moram no Japão, onde foram como dekasseguis. Gostaram e ficaram por lá mesmo.

Porém, papai comemorou bodas de ouro com mamãe. Ele foi muito feliz. Foi para o andar de cima em 1992. Dez anos depois, mamãe o seguiu.


*Minami Keizi (Getulina, 9 de junho de 1945 - Itapevi, 14 de dezembro de 2009)
Natural de Getulina, interior paulista, formado em Jornalismo e em Desenho. Começou escrevendo em 62 para o Jornal Juvenil. Foi o primeiro desenhista a desenhar no estilo mangá, publicando tiras diárias no Diário Popular (65) e revista própria (Tupãzinho) de 66 a 72. Fez previsões astrológicas para vários semanários do interior. Escreveu também para diversas revistas, inclusive no exterior. Tem mais de 800 livros publicados.

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