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Sexta-feria, 30 de julho de 2010

Cem anos de imigração
Imigrantes japoneses viveram com suor e lágrimas suas histórias e ajudaram a construir os alicerces desta forte nação que hoje é o Brasil
 

(Texto: Minami Keizi | Foto: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

Neste ano, 2008, comemoram-se cem anos da imigração japonesa. Lembro-me dos meus avós, principalmente da minha avó, sempre externando a saudade que sentia do Japão.

Papai casou-se com minha mãe quando seu marido, meu tio, faleceu em conseqüência de um câncer no estômago, deixando quatro filhos, o mais novo com seis meses de idade. De acordo com o costume da família, viúva, minha mãe teria que regressar para a família original, com os filhos. Vovô não queria se separar dos netos e resolveu casar papai com a cunhada dele, para dar continuidade à família.

Foi um golpe duro para papai. Jovem e bonito, por certo papai deve ter vivido um dilema. Claro que já tinha a sua eleita. Todavia, o amor pelos sobrinhos suplantou tudo isso e papai se casou com a minha mãe.

Eu sou o segundo filho nascido dessa união. Meus pais tiveram quatro filhos. As duas irmãs moram no Japão, onde foram como dekasseguis. Gostaram e ficaram por lá mesmo.

Porém, meus pais comemoraram bodas de ouro e foram muito felizes. Meu pai foi para o andar de cima em 1992. Dez anos depois, mamãe o seguiu. Ele sempre dizia que a convivência faz o amor. O amor verdadeiro transforma-se em eterna amizade. Somente assim o casamento perdura.

Eu nunca vi papai e mamãe brigarem. Eles sempre viveram na mais completa harmonia.

Os imigrantes japoneses viveram com suor e lágrimas as histórias pessoais de cada um deles, e ajudaram a construir os alicerces desta forte nação que é o Brasil.

O japonês é um povo festivo. Não importa as condições: a comemoração não pode faltar. No ano-novo, antes de o sol nascer, os homens reuniam-se no clube da comunidade, enquanto as mulheres ficavam em suas casas, preparando guloseimas para a comemoração.

Meio sonolento, lá estava eu, criança, em fila, esperando o sol nascer. Assim que os primeiros raios matinais nos atingiam, cantávamos o hino nacional japonês, hasteando a bandeira. Depois do hino, reverenciávamos e saudávamos o imperador. Por fim, os jovens cantavam o hino nacional brasileiro, enquanto a bandeira brasileira se elevava no mastro.

Mais tarde, os grupos divididos em meninos, adolescentes, solteiros e casados iam de casa em casa saudar o ano-novo. A família visitada oferecia sushis e guloseimas com guaraná da Antarctica ou Bhrama (não existiam outras marcas). Quando chegava grupo de casados, a maioria preferia cerveja. E cerveja quente, porque não tinha geladeira. Não sei como eles tomavam cerveja quente tão avidamente!

Essa visitação de casa em casa durava três dias. No dia 4 de janeiro, tudo voltava à normalidade. Significava volta ao trabalho.


*Minami Keizi (Getulina, 9 de junho de 1945 - Itapevi, 14 de dezembro de 2009)
Natural de Getulina, interior paulista, formado em Jornalismo e em Desenho. Começou escrevendo em 62 para o Jornal Juvenil. Foi o primeiro desenhista a desenhar no estilo mangá, publicando tiras diárias no Diário Popular (65) e revista própria (Tupãzinho) de 66 a 72. Fez previsões astrológicas para vários semanários do interior. Escreveu também para diversas revistas, inclusive no exterior. Tem mais de 800 livros publicados.

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