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Sexta-feria, 30 de julho de 2010

O egoísmo
Há muitos anos, havia uma velha muito sovina e egoísta.
Guardava tudo para si e não dividia nada com ninguém...
 

(Texto: Minami Keizi | Foto: Divulgação)

Os jesuítas introduziram o cristianismo no Japão e as boas fábulas portuguesas foram adaptadas para o budismo local. Ou vice-versa. Essa fábula é uma delas.

Há muitos e muitos anos, havia uma velha muito sovina e egoísta. Guardava tudo para si e não dividia nada com ninguém. Dizia que era para comprar um lote no paraíso. A velha morreu. Descobriu que o dinheiro que ela guardara ficou no mundo dos vivos. Desconsolada, lamentava a sua sorte.

– Que tristeza! Cá estou, sem nada, aguardando para entrar no inferno. E, ainda por cima, essa fila enorme!

De tanto se lamentar, Bhuda a ouviu e:
– Velha! Quando em vida você fez alguma boa ação?
A velha relutou. Por mais que lembrasse, não recordou nenhum ato de humanidade.
– Então, velha, nada mesmo? Não posso fazer nada pela senhora!

Foi então que, buscando no fundo da memória, ela lembrou de um único ato que remetia à bondade:

– Ah! Há muito tempo, dei um pedaço de cenoura para um pedinte!
– Seria este pedaço? – Bhuda materializou um toco de cenoura murcha. – Pois bem, será a sua passagem para o Paraíso! Segure-se bem nele e ele lhe levará ao meu reino!

A velha agarrou o pedaço de cenoura, que começou a subir. Também outras almas se agarraram nas pernas da velha. Dezenas, centenas de almas se elevando...
– Não! Esta maldita cenoura não irá agüentar tanto peso! Saiam! Afastem-se de mim! – e começou a debater as pernas. As almas caíram uma a uma. Quando a última alma despencou, o pedaço de cenoura explodiu em mil pedaços. A velha espatifou-se no chão do inferno.
– A frágil cenourinha carregaria todas as almas do inferno se o egoísmo humano permitisse – lamentou Bhuda – É uma pena!


*Minami Keizi (Getulina, 9 de junho de 1945 - Itapevi, 14 de dezembro de 2009)
Natural de Getulina, interior paulista, formado em Jornalismo e em Desenho. Começou escrevendo em 62 para o Jornal Juvenil. Foi o primeiro desenhista a desenhar no estilo mangá, publicando tiras diárias no Diário Popular (65) e revista própria (Tupãzinho) de 66 a 72. Fez previsões astrológicas para vários semanários do interior. Escreveu também para diversas revistas, inclusive no exterior. Tem mais de 800 livros publicados.

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